quarta-feira, 3 de março de 2010

MALE YA PHEPHA

Male ya phepha

A male ya phepha, meticale ayina khombo

Vakone la vadlaka va xuza vatlela va lalela

Kuvi mine na wene n’kata ho sika hi nd’lala

Hine hi kone hi hanha hiswi tsakatu hi dhuama tindende nkata

Vone vadla mpunha mpunha

Munwani ungamu vona a kuluka kuluka kuluka a phinheta,

Uku utwa ani timale kuvi i mizi wa siwana

Wamuvona kulala nhana awumu voni ku lala nhana a minnta yinga tchai

Nili nwananga vuya utani swekela xi dana nkaka kuvi xa bava tiyisela utanwa mati –Eugênio Mucavele

Não se sabe porquê mas muitos acreditam que o dinheiro não tem azar. Para estes, basta que o seja, independentemente da proveniência e do meio pelo qual se obteve.

O meu velho pai Macamo tem a mania de dizer que “dinheiro não é tudo meu filho” e eu, respondo que “nunca o experimantaste para saber se o é ou não”.

Meu pai responde a esta minha deixa sempre com um sorriso. Nunca tive interesse em vasculhar o que esconde e se, esconde alguma coisa aquele sorriso, verdade é que acredito que dinheiro opera milagres.

Os que tudo possuem acreditam que os outros (os que nada tem) devem acreditar que dinheiro só traz infelicidade. Meu Professor de economia diria: “Barreiras a entrada de novos concorrentes”, porque fazer crer que o dinheiro só traz infelicidade, equivale a teoria de que a religião é o ópio do povo e esta, já escangalhamos.

Seja como for, o dinheiro, “Meticali ayina Khombo”, não tem azar e desbloquea tudo e/ou quase tudo.

E Eugénio Mucavele sabia disto e sabia-o tanto que criou este docce milagre de canção: “Male ya Phepha” (Dinheiro (em notas) de Papel).

Mucavele agigantou a criança faminta que somos e chorou com esta música; chorou justamente porque sabia que nem todos estavam condenados à sua sorte, pois, havia os que comiam a fartura e até com refeições extras quando ele e a esposa minguavam de fome.

E enquanto minguavam de fome e viviam de verduras sem condimentos, havia sim quem tinha direito a um regabofe e agrava este facto, porque quando a brisa soprava,(basta olhar para a vizinhança perigosa das casas de chapa e caniço da zona da escola Portuguesa, com as mansões que ali abundam), vem-lhes o cheiro das iguarias e com ele a cíclica revolta dos oprimidos sociais.

Porque lhe dói isto, chega a fazer troça do Magricela e diz” não se deixe enganar por ele ser um magrelas, porque come que se farta. E graceja, no sentido de que, podes ver quem engorde e sem parar e pensar que é o senhor dos dinheiros, quando é gordura de probreza; é o jogo dos contrários.

O mais importante nisto, é que esta fome não o separa da sua amada, pelo contrário, cimenta neles mais amor, de forma que desafia a mulher a cozinhar qualquer coisas como cacana que se sabe amarga, mas pede a mulher e naquele paz sofrida que vivem, que seja forte e beba água para atenuar a amargura.

Está pois claro que, ele equipara a amargura do alimento a da vida dura a que está condenado e sei que lhe rói a falta de dinheiro porque se o tivesse e lubrificante que é, do problema dos manjares eles não teriam.

O apelo a comida, não é no sentido de que saco vazio não fica de pé, mas sim, um subtil paralelismo que este cria, entre os que tem (de comer) e os que nada tem (passam fome), onde a comida ganha o corpus de todos os bens materiais e a falta dela, a pobreza que sufoca os demais.

Eugénio sabia nas suas letras ascender, sabia definir e escolher o tema para o canto, sabia criar sucessivas palavras poéticas que faziam o perfeito canto das nossas dores e alegrias, sabia se reencontrar na haste mais alta dos problemas sociais.

E foi-se precocemente, deixando suas músicas que sabem pouco sempre que se escutam, porque sublimes. E foi-se pobre, empobrecido e sem o dinheiro de papel!

E hoje, sempre que o escuto, sei que faltou o dinheiro de papel nos momentos decisivos da sua vida, porque doutra forma, ainda estaria vivo e a nos deliciar com o gracejo que eram suas cançÕes.

Como faz falta Male ya phepha!

8 comentários:

Ximbitane disse...

Como é que a alegria de um estomago pode depender do valor do male ya phepha? So quem assim vive o sabe. E ha quem nem umas moedazinhazitinhinhas sequer tem e outros banjam e esbanjam! Porca miséria

Julio Mutisse disse...

Poiombo, pedi encontro com chefes de duas editoras para segunda-feira para falar da necessidade de publicar 2 livros: um meu (que Mapengo me ofereceu vão quase 5 anos) e um seu sobre nós. Sobre nós moçambicanos que voamos nestes cantares dos verdadeiros fazedores da arte de cantar em Moz. Não há negas. chega de teorias. Vamos a prática

Anónimo disse...

mpoyombo, é sempre uma alegria ler os teus comentários sobre a nossa música. penso que a música de intervenção social é mais eficaz quando é subtil como esta obra-prima que comentas. tenho a impressão de que "male ya phepha" tem também um sentido metafórico de dinheiro que não presta para nada (de papel) que do ponto de vista da sociologia constitui uma excelente observação. não é curioso que a gente passe fome e privações justamente por não ter esses pedaços de papel? abraços. passei esta tarde de domingo a ouvir as músicas que me passaste.
elísio macamo

amosse macamo disse...

Porca miséria mesmo minha mana, mas a vida é assim mesmo (sera que é assim?)

amosse macamo disse...

quem sou para negar e entrar em teorias quando tu meu irmão me colocas um desafio gigante como esse? vamos a prática, só tens de me indicar o caminho que eu sigo

amosse macamo disse...

Mpoyombo Mor, a alegria (e renovada) é sempre minha em ter-te aqui. na verdade é um estímulo e alento a sua passagem pelo Modaskavalu, sem prejuízo claro dos demais que aqui passam. Não tinha visto as coisas do lado que me colocas. faz muito sentido porque doutro modo, seria apenas “male”, mas se foi acrescido o ya phepha, é mesmo no sentido de que não presta para nada. Excelente observação a sua Mpoyombo e acredite, quando o desafio do Júlio der cert(publicar o Modaskavalu, na limpeza que vou dar aos textos, vou incluir sim esta ideia e com referência a fonte).
Não faz sentido de facto sofrer privações e fome por falta deste pedaço de papel, mas talvez deva lembrar o Alexandre Langa quando diz aniswi rhandzi ku fanana ni hanyi va doropa loku vatwa ndlala vaya bazara....a loku ako tsuka kuna mpfula anito ya byala massinwini ni rimile.......não quero iumaginar a saudade que sentiste de casa ao ouvir esses bons tocadores que te passei. bem haja.

Anónimo disse...

abraços!
e. macamo

jaime sueia disse...

eugenio foi um grande artista