sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Zeburane N´kata


Zeburane N´kata

Sou um apaixonado pela música de Eusébio Johane Tamele (Zeburane). Admiro a sua graciosidade, a alquimia das suas músicas prenhes de sensualidade e com uma harmonia e estilo únicas. Cresci a ouvi-las e desde cedo, amarrei-me a elas de tal forma que não conseguiria viver sem. Minha mulher sabe.
Mas se a minha mulher sabe e sempre aceitou, é porque sempre tive o cuidado de a chamar atenção a beleza das músicas de Zeburane e especialmente da mensagem por detrás.
O que Zeburane canta, não difere do que cantavam todos os executores da música moçambicana na zona sul, onde, vestiam a pele de mulher sofrida e reclamavam da vida dura imposta pelos seus amados, só que este é para mim o primeiro entre os iguais.
Primeiro na delicadeza com que trata o problema da mulher, na sensibilidade para com a sua dor, nas lágrimas das cordas da sua guitarra que sabem bem ao choro de uma mulher, na verdade, o eu-musical de Zeburane é o feminino sofredor, cantando a dor do amor não correspondido e a desilusão de ter casado com um homem que no início do namoro aparentava ser afável, mas quando casado, descobre-se o seu lado obscuro.
De facto, se pegarmos na música tlhavela lhanga lhokweni (ni ta kota niti singuela ka wena mina..), encontramos aqui uma mulher, que reclama do comportamento do seu marido que mudou radicalmente desde que esta passou a viver com ele. E recorda que nos tempos em que namoravam, aquele, fazia de tudo para a agradar, chegando até a sujar as calças de tanto ajoelhar e pedir para que ficassem juntos (awuni shenguetela nandzali kaya a wu pswuka ni mabuluke hiku ndunzda/nhamuntla honi dindrikissa juru, nhamuntla honi dikinha, aku tshava ku ti sunga, se ni to ini, kambe nhumpfu ai fembanga nwashanga hambi nio ti tsamela ka mamani mino.......este homem, de facto, fez de tudo para ficar com a mulher que gostava, mas. logo que consegue, em vez de a valorizar, passa a ter um desprezo por ela, e chega esta, de tanto desespero, a não excluir a hipótese do suicídio, mesmo que tenha medo de o fazer. E lamenta-se dizendo, “se pudesse prever o futuro, jamais saia da casa da minha mãe”. Agudiza a já penosa situação desta mulher, o facto dela ser estéril daí que diz, já mesmo desesperada, “vou-me suicidar por sua causa” (nita kota niti sunguela ka wena mina), na verdade, um verdadeiro acto de desespero.
Alberto Mucheca, outro homem de trato fino nas suas músicas, já cantou algo similar na música “mamani ni rhivalele”, quando diz na voz de uma mulher que casou-se com um homem que tinha carro e trabalhava na África do sul, enquanto a namorava encheu-a de promessas, mas, logo que a tira da casa da mãe o cenário muda; já não mais subia o carro e quando questiona, a resposta é a porrada (nilhamuliwa hiku biwa mina) e desabafa, “melhor é voltar para a casa dos meus pais (shi tluliwa hi tlelela kaya kava tswali va mina.)
E num tom de arrependimento diz “mãe me perdoe (mamani ni rhivaleli/ni khaulile mina mamani), aprendi a lição”, e já arrependida diz, “porquê não ouvi seus sábios conselhos?”.
E é o mesmo Zeburane que volta a explorar o mesmo tema em “rhumba rhumba tchatchatcha”, quando reclama e sempre na voz da mulher sofrida o homem que a tira da casa dos seus pais, para a fazer sofrer e diz “todos os dias levo porrada, sem ao menos saber os motivos (siku ni siku niwaku biwa mina, shihono shakona anishitive kassi) e quando entendes, ficas 3 semanas fora, sem comida e as crianças a passarem fome e privações (nishakudla awuni nhiki lamuntine vatsongwana se vho rhila hi ndlala, yi yowe yowe yowe tchatchatcha, holava kuni txinissa tchatcha mina), só queres me fazer sofrer, definitivamente, me fazer sofrer.”
Esta canção, é cantada entre choros e lamúrias, na verdade, pode-se fazer até o exercício de imaginar a posição em que se encontra a mulher a cantar esta canção; com a palma de uma das mãos apoiadas na bochecha e a outra em volta da cintura de pé e encostada a uma árvore.
E volta o mesmo Zeburane à carga com a música “ni tseleke mati ya mina shivavene, nuna wa mina hatavuya hata lhamba, koza ku pela ma khutla maba tlutlani.....”, preparei a água de banho, a pensar que meu marido vai voltar e tomar, meu azar, porque os sapos se fizeram a nado e ele jamais voltou.....
Reparem; esta mulher, teve que percorrer quilómetros a busca de água, depois fez-se mato adentro e procurou lenha, que teve depois que rachar, fez o lume e quando viu que era hora do marido voltar preparou um banho quente, tudo feito para agradar.
Um verdadeiro acto de amor que se diga, porém, frustrado pelo marido, que nunca mais voltou, ao ponto das rãs mergulharem na água...”madjembeni”, este marido.
Mas esta do marido que desaparece de casa por alguns dias sem dar notícias de onde se encontra já foi também cantado pelo Mandlazi com a música he nwana mamani anuna wa mina/ni ta ti sunga juro hiwu gueleleguele a nuna wa mina”, um homem que quando saia de noite voltava dia seguinte e também nesta a mulher chega a questionar ao marido se queria que esta se suicidasse pelo seu comportamento, porque as outras mulheres chegam até a gingar com o seu marido “vanuanhana kuloni va gingara hi nuna wa mina” a ma beijo ma beijo, va beijarana ni nuna wa mina”, mas saiba, diz a mulher já cansada de tanto chorar, onde tu fores Mandlazi, doravante iremos juntos. (lomu uyaka kone, nkata mina ni tafamba nawena.)
Mas o foco aqui é Zeburane, um homem que nunca se esqueceu da mulher e dos seus prantos, que sempre cantou a sua beleza, sua tristeza, suas frustrações, um homem que se superou na sua sensibilidade e soube em plena região dos machos magaízas e bendasporros de Gaza, trazer a sempre ofuscada voz da mulher. A este, a minha vénia, sempre e juro nunca vou fazer a minha mulher e nem mulher nenhuma, dançar rumba rumba tchatcha tcha...mas promessas são promessas e de promessas Zeburane está cansado.

Amosse Macamo

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