quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Joaquim Macuacua e as mulheres bonitas

Joaquim Macuácua: o inconformado


Cresci a ouvir histórias fantásticas que me eram legadas pelos meus avôs, desde o Xitukulumukhumba, Guiguisseka, dos mineiros na terra do rand etc. Estas histórias, para além de povoar o meu imaginário obrigavam que no fim tirasse sempre uma ilação: o que tinha aprendido delas.

Eram estas histórias que nos emancipavam, que nos faziam transitar de criança, para adolescente e desta para adulto, isto porque, quanto melhor compreensão das mensagens por detrás; estava garantido a transição de uma fase para a outra.
Ora, se por um lado, estas histórias eram o termómetro que media a nossa capacidade de avaliar, por outro, mesmo que não nos pronunciássemos no final delas, por dentro, fervilhávamos com a nossa verdade inventada, com o subjectivismo que elas nos remetiam, o fantástico, a aventura, a inevitável fuga, o maravilhoso...era lindo.

Mas, o mais importante destas histórias é que com elas sempre se aprendia, mesmo que despercebido, porque era normal ouvir uma história aparentemente sem interesse, para no dia seguinte acontecer algo que nos remetesse a ela e em muitas situações era inevitável o arrependimento.

Mas é já na idade adulta, depois de cometidos todos os erros, que as histórias contadas na infância voltam em catadupas, obrigando-nos a confrontá-las, porque fugir, não mais adianta. É nesta idade, que dizemos a nós que se pudéssemos recuar o tempo, faríamos tudo como nos foi dito pelos mais velhos, porque experimentados, logo; conhecedores da verdade.

Hoje, proponho-me a abordar uma música que, embora carregada de deliberado extremismo que sempre caracterizou o seu autor, remete-nos, para este mundo que acima referenciei, falo da música “male yo luza” (dinheiro perdido), de Joaquim Macuácua.
Nos ditos dos mais velhos, é opinião assente que as mulheres bonitas têm sempre um defeito, como quem diz, “não há bela sem senão.”

O Joaquim Macuácua, antes de se casar com uma mulher bonita, certamente que desmentia esta teoria, contudo, o casamento e com uma mulher bonita o fez acreditar nesta teoria e não só, pareceu-me com esta música, que passou a ter grande pavor delas.

Mas entremos em análise, ainda que sucinta da letra:
Começa o Macuácua, dando a mão à palmatória no sentido de que se tivesse atendido a voz da razão (dos mais velhos), não teria caído num erro grosseiro em algo que lhe foi ensinado nos contos (A minkaringana va nga hi bulela va khale/impfa ihi nhika u sima…)

Como um escorpião que pica sempre no final, Macuácua, com esta introdução, evitava, que os mais velhos o dissessem, “nós avisamos”, daí que, tomando a dianteira já se auto condena.
Diz ele que os mais velhos o ensinaram a não brincar com dinheiro (a va khale va ni gwelile va ku unga tlangui hi male/a va khale va ni gwelile swaku sati waku sasseka wa loya) e mais, que mulher bonita é feiticeira.

Joaquim, deliberadamente, estabelece um paralelismo entre o valor do dinheiro e da mulher bonita, onde em última ratio, mostra que o seu dinheiro ganha.
Ganha, em o ter gasto a casar uma mulher bonita, pois, se soubesse que aquela seria a confirmação da tese dos mais velhos, a beleza não seria o atributo de escolha, daí que entre choros e lamúrias diz (ó male ya mina, juro ninga tlanga hi yona chissa!.), “oh meu dinheiro jogado fora.”

Seu dinheiro ganha tal valor que reduz a mulher bonita a uma mercadoria defeituosa, onde não lamenta a experiência mal sucedida de construir um lar, mas sim, o facto de ter jogado fora seu dinheiro, na convicção de casar uma mulher, afinal (nyia teka xiphunta mina), “fui levar uma louca”.

Na verdade, diz o Joaquim que vakokwane vani gwelile ku nsati wa ku sasseka wa loya/loku a nga loyi i gueleguele/loko anga guelezi i lolo/loko anga loloti wa yiva/loko anga yive wa mbwambua/loku anga mbwambwati ani futa he/loko angana futa ixidakwa xissa /ho mali ya mina, juro ninga tlanga hi yona leyi, o que traduzido diz; “os mais velhos me disseram que mulher bonita é feiticeira, se não é feiticeira é prostituta, senão for prostituta é preguiçosa, e se não é preguiçosa é ladra, se não é ladra tem desprezo e se não tem desprezo é porca, se não for porca decerto é bêbada; oh meu parco dinheiro jogado fora”.

Ora, face a este defeitos arrolados questionar-se-ia e é justo; o que sobra da virtude?

Esta mulher é tão péssima que até quando cozinha, tal comida, é intragável e quando o Joaquim a pede para comer, o indica a comida com o pé (loko asweka swakudla swo tlala a maha hikuni shungueta hi nengue).

Mas será esta a imagem de fundo que o Joaquim queria deixar? Era sua intenção reduzir a mulher bonita a nada? E será que o seu dinheiro vale mais que a tentativa de constituir família?

Penso que não. Na verdade Joaquim Macuácua, no estilo que lhe é característico, quis desmistificar a mulher bonita, para que não caia no convencimento de que pode tudo, só porque é bonita.

As mulheres que se acham bonitas sofrem de um complexo de superioridade tal que desprezam as que acham feias, na verdade, tem usado a beleza como único requisito para que sejam aceites socialmente (como se a beleza exterior fosse tudo), desprezam os seus companheiros, porque no seu dizer, “atrás de si, existem dez homens que querem estar comigo”, muitas destas desistem da escola porque alguém as convenceu que são bonitas, portanto, um sem número de situações que poderia relatar, que criam nestas, uma falsa representação da verdade e a pergunta: O que dizer de quem não vive a verdade?

E é lógico que não concordo com a tese dos mais velhos, mas, em algumas ocasiões, quando vejo mulheres que só colocam a questão da beleza como única forma de suprir as suas enormes faltas, tendo a inclinar-me.

Uma outra visão desta mesma música é a de que o Joaquim amou tanto uma mulher bonita e que deve no seu imaginário, tal como nos Minkaringanas, ter imprimido uma fuga no sentido de mulher ideal, que não encontrou na vida real e daí o inevitável desgosto.

De todas as formas, o Joaquim, com este exercício, espevita as mulheres bonitas e as despe das suas manias de grandeza, pondo-as no mesmo pé de igualdade com qualquer mulher, porque no fundo ele acredita que a verdadeira beleza de uma mulher é interior.
Amosse Macamo

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Há ou não conflito de gerações na música moçambicana?

Diz-se, que um especialista, falando para o seu auditório numa palestra, começou citando, as seguintes frases:
1.“Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus.”
2.“Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”
3.“Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.”
4.”Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.”
Imagine o amigo leitor, o sentimento de aprovação e consequente aceitação destes factos por parte da plateia, que o ovacionou e de pé durante largos minutos.
Na verdade, este, era o efeito que o especialista pretendia, pois, logo à seguir revelou, a origem de cada pensamento enunciado e dizia que:
O primeiro é de Sócrates que viveu a (470-399 a.C), o segundo de Hesíodo (720 a.C.), o terceiro de um Sacerdote do ano 2000 a.C e o último, achava-se inscrito num vaso de argila descoberto nas ruínas de Babilónia que continha mais de 4000 anos de existência.
O texto acima corre na Internet e auxiliei-me dele, para sustentar a minha posição, sobre o conflito de gerações entre os fazedores do pandza e Dzukuta e os da “velha guarda”
Não podemos ter o receio de afirmar que está instalado a crise e consequentemente o conflito de gerações entre os fazedores de música moçambicana, pois, os conflitos, sucedem quando as gerações diferentes, têm visões de mundo distintos e isto é natural, negá-lo, não passa de pura hipocrisia senão vejamos:
Do sentimento dos mais novos
Os mais novos actores da música, não se identificam com nenhum dos antigos. Na verdade, para além do medo que têm de ficarem como eles (todos pobres ou empobrecidos), sentem que a maioria destes são ingénuos e ultrapassados, porque, na sua maneira de ver, falta alguma garra neles e ou algum sentido de oportunidade.
Do sentimento dos mais velhos
Os mais velhos, acham que os jovens simbolizam tudo que é de errado na música, e acham estes, que não é pelo facto dos mesmos venderem, controlarem a mídia e as grandes empresas que faze deles grandes músicos, pois, para estes, o que a juventude faz e ajudado por estas empresas, é promover a promiscuidade, fazendo tudo, menos música.
Da questão da mudança
É bem verdade, que quanto mais a idade avança, mais difícil torna-se a mudança, porque os hábitos estão enraizados, seria todo descabido, obrigar em nome da mudança o José Mucavele por exemplo, hoje, a fazer Pandza ou Dzukuta, porque além de não aprovar o mesmo estilo, está habituado ao seu, aliás, era normal que os jovens o seguissem e não ele a estes.
Os jovens, por sua vez, têm uma grande capacidade e apetência de assimilar o novo rapidamente, e é aí, onde nasce o conceito de que os mais velhos são ultrapassados, pois, é como sustentava o outro no debate recentemente promovido, que “eu não tenho linha; na verdade, se me apetecer tocar Rock toco, se pandza, Dzukuta ou Marrabenta, não me importo. É só imaginar isto a ser dito por um José Mucavele, ou então imaginar, o que ele pensa de quem age assim.
Do que os músicos não devem ter medo de dizer
Não devem os mais velhos ter receio de dizer que não gostam do que os mais novos fazem. Não devem ter receio de dizer que admiram a parte do marketing por exemplo que é feito pelos jovens porque é forte. Que admiram a capacidade de alguns em investirem na qualidade dos vídeos, mas não alinham com a sua orientação musical, pois, dizer e defender o contrário não passe de hipocrisia.
Os jovens devem dizer e claramente, quais os seus medos, porque, fingir que gostam das músicas dos mais velhos enquanto não, é hipocrisia, mas também fingir não gostar, para meia volta fazerem versões que muitas vezes distorcem a música e causam arrepios ao ouvido, não passa também de grande hipocrisia.
Não se pode negar a diferença, porque parecendo que não, o reconhecimento desta, é primeiro passo, para agregar ideias e avançar em bom sentido.
Das intenções dos mais velhos
Os músicos mais velhos acreditam que com a sua experiência, com o acumular de idade, devem poupar os mais novos de experiências más que eles já experimentaram. Contudo, esquecem estes, que aprenderam fazendo e neste momento, certo ou errado os jovens estão a fazer.
Defendem estes que os jovens não os ouvem, contudo, penso que, mesmo que os jovens os ouvissem, nada lhes vais impedir de fazer questionamentos e tentar seguir por seus próprios caminhos, é a tendência natural da coisa, não a podemos evitar. há que intervir sim, mas sem sufocar.
Onde todos falham
Ninguém aqui dá tréguas ao outro. Há uma tendência exacerbada de cada actor, exaltar o seu ego e que se diga, não há lugar onde o ego mais se exalta que nos artistas. Os mais novos não cedem e pior os mais velhos; estamos na presença de extremos e quão difícil é lhe dar com os extremos.
Todos acreditam que podem viver sem precisar dos outros, e pior: que existe dentro da mesma classe, os primeiros entre os iguais. Na verdade, quem faz ou devia fazer a classificação de quem é bom ou mau músico não deveriam ser os próprios músicos.
Se não for a sociedade que com o seu ouvido vai seleccionando o que é bom ou mau, deve ser algum outro organismo e não de músico para músico, se bem que a opinião de um, é preponderante para o outro, daí a ideia da associação, pelo que não é de bom alvitre, um músico, aparecer em praça pública e munido de todas as zangas a classificar os outros, sem mais nem menos.
Penso que não compete ao Wazimbo como músico e/ou Zico, por exemplo, dizer em público quem ele considera ou não músico, ou quem imprime ou não maior qualidade nas suas músicas.
O que preocupa
Preocupa-me a questão de, em algumas cerimónias de cunho e carácter de Estado, se chame para cantar alguns produtos inacabados e precoces que pululam na nossa “indústria discográfica”, não faz muito sentido, que o Estado critique a temática das músicas de Zico e meia volta, use o mesmo como chamariz dos seus programas sociais. Não será esta, uma forma de legitimar o mal? Ou então; uma antítese a própria tese do que o Estado defende?
Não seria aqui, e porque o Estado não pode mandar nos gostos dos seus cidadãos que deveria educar para a adesão a “moçambicanidade”, chamando um Wazimbo ou Salimo Muhamad? Estará a cultura moçambicana expressa nas mini saias e cuecas dos rabos escuros, claros e clareados dos vídeos moçambicanos todos eles feitos juntos as piscinas, em iates, nas inacessíveis mansões da zona de Caracol e companhia?
Que as maiorias reneguem os músicos da velha guarda, aliás, em casos como este, não preocupa a maioria, porque existem por exemplo maiorias loucas, na verdade, nem tudo que é aceite pela maioria, é o politicamente correcto, é só lembrar que vezes houve em que a maioria decidiu fazer justiça pelas próprias mãos!
A mim, me preocupa, que em alguns eventos com carácter e cunho de Estado, se convide por exemplo um Robson, que de músico nada têm e o desafio a provar. Reparem, nada tenho contra este cidadão (que é um entertainer), se bem que gosto de muitos músicos brasileiros como Tim Maia, Ed Motta, Ney Matogrosso, o Djavan, Caetano Veloso e outros. Aceitaria que em eventos de Estado se chamasse um de calibre destes, porque seria como que puxar pelo músico moçambicano, de outra forma não passa da negação dos valores que o Estado diz defender.
Ou então envergonha ao próprio Estado o Filipe Nhatsavele que vai vestir a sapatilha do Moçambicano profundo contra os seus protegidos, que se orgulham em canal nacional, ante o cidadão que mal come e veste de vestirem Armanis, Guccis e companhia?
Infelizmente, não se pode impor que algumas empresas prefiram um músico no lugar do outro, porque seguidores do que o mercado consome e interessados somente em vender seus produtos, mas, o mesmo, já não faz sentido em algumas empresas intervencionadas por dinheiro público, como o Canal Oficial (TVM), que passe a vida a baldar os bons fazedores da música moçambicana. Se a TVM está preocupada com a concorrência, que implemente e já o seu canal comercial, onde poderá desfilar e num à vontade toda a promiscuidade.
Cito de memória um ministro brasileiro, que coincidentemente esteve em Moçambique, enquanto corria o espectáculo de um artista brasileiro e que, teria dito ou insinuado, que no lugar daqueles poderia se ter chamado outros e citou alguns.
Os que o Ministro citou, entendia, que são os que se identificam com o mosaico que é a cultura brasileira, são os que considerava reais Embaixadores da sua música, muitos, que têm as vozes castradas, pela fome da indústria de lucro. E porquê os ministros moçambicanos não fazem o mesmo? Acreditem, se fosse um alto dignatário, levaria comigo o Hortêncio, Cabaço; José, Mingas, Elsa, Isaú, Madala, Zena...
A mim preocupa-me quando os alguns músicos, negam o termo velha guarda, quando este significa um certo privilégio, pois, sinónimo de mais experimentado, mais antigo, veterano e me questiono haverá igualdade, senão em profissão entre o Dilon Njigi e Zico por exemplo? onde choca o termo velha guarda?
Também me preocupa, que alguns jovens, que assumiram a música numa visão empresarial (o que é de louvar), esvaziem o seu carácter de arte, em nome da mesma visão, e alguns dirão: mas se podem enriquecer, porquê não criar riqueza?.
Mas qual a solução?
Em todo mundo, a sociedade, é que inventa soluções para este conflito, porque mesmo não gostando por exemplo da geração pandza, nunca vou defender a sua extinção, vou evitá-la simplesmente e se um dia minha mulher, filha, e ou afim o preferirem vou respeitar, em nome da tolerância, aliás, da mesma forma que tolero vários Robsons por aí.
Na verdade, estes jovens, ajudam a entreter os nossos filhos e são de certa forma um contributo, para que os mesmos não se desviem e enveredem pelo ilícito.
Penso também que pode haver uma trégua entre os fazedores de um e outro estilo de música, o Tio Wazi e So What, deram nos algum exemplo, aliás, esta, é uma oportunidade soberana dos da velha guarda, de leve, introduzirem o seu conceito do que seja música aos mais novos.
Há pouco, assistimos a um casamento entre jovens e a velha guarda, que foi o projecto Mabulu, e o resultado foi o que todos assistimos: um boom de se tirar o chapéu, pela qualidade que imprimiu e pelo naipe de músicos que conseguiu aglutinar, mostrando que é possível este casamento e com qualidade.
Não me parece correcto que os mais velhos, não saibam interpretar os sinais da juventude, quando eles também já foram jovens e talvez, mais rebeldes e ousados que estes jovens de hoje, pelo que, quem se deve mostrar aberto ao diálogo, deviam ser os mais velhos.
Deviam os mais velhos aproveitar dos mais novos a visão empresarial que já demonstraram dominar e parar com a mania de não se quererem misturar, porque, mesmo na música com carácter de arte que eles fazem, precisam de algo que sustente esta mesma arte: o dinheiro. E para fazer dinheiro é necessário, um forte marketing e qualidade nos vídeos, os jovens já demostraram saber fazer e mesmo na música que estes fazem, é preciso, separar o trigo do joio, porque há outras com qualidade invejável.
Qualquer, que se sentir músico, deve ir a Associação e este, o receber de braços abertos, porque sua casa, deixando assim, os músicos, que sejam os organismos competentes, e a sociedade, a classificar o que seja ou não música.
Devem, tanto os mais velhos, como os mais novos, potenciarem-se, no sentido de acrescentar, onde se mostre que falta em cada um.
Ao músico a tarefa de fazer música e aos críticos de criticarem. Ficar a discutir se há ou não conflito entre a nova e velha geração e fingir não existir problemas quando existem é hipocrisia, porque especialistas de renome, acreditam que os “choques entre gerações sempre, vão existir, mesmo que mudem os motivos que os provoquem, uma vez que o que está por trás de qualquer conflito, é a luta pelo poder”, ou não?
Amosse Macamo

terça-feira, 7 de outubro de 2008

ubiwilitolo

Ubiwilitolo (será que foste repreendido?)

É facto que a critica social tem alicerces na ideia do melhor. Parte-se sempre, do ponto de vista de que os factos não correm em conformidade, daí a necessidade de nos posicionarmos de forma neutra e num plano superior, analisar a situação na profundidade.
A crítica quando colhe consenso ajuda a criar a consciência colectiva e logicamente que numa sociedade em constante derrapagem de valores, esta, é fundamental.
O grupo Ghorwane é um grupo calejado em matéria de crítica social, as suas músicas reflectem o quotidiano, questionando-o, problematizando-o e propondo, soluções específicas.
São exemplos desde Majurragenta as músicas Akuhanha, Terehumba, Mavabwyi, Muthimba, Sathane, Massotcha e mamba ya malepfu, no Kudumba, até ao Vana Va Ndota com músicas como Xitchukete, Tlhanga, Livengo e outras. Mas o foco hoje é a música “ubiwilitolo” do álbum “Vana Va Ndota.”
A música em realce, é uma verdadeira “música de protesto”, que descorda por completo com a situação que hoje se vive, onde e coloca o seguinte questionamento: “será que foste repreendido (educado)”?
Quem escuta o primeiro trecho da música e sei que este facto foi propositado, concorda plenamente que os miúdos de hoje tem a pouca vergonha de perseguir as mulheres dos outros. (a va fana mina, vama siku lawa vani ntungu wo biha wa tku tlovela va sati va vhanu).
A primeira colocação que o Chitsondzo faz é a de os miúdos (rapazes), metem-se com mulheres dos outros, e esta, não é senão, uma mania generalizada, ou de uma moda se assim o quisermos, em que os jovens, apostam, entre eles, em como vão conseguir os seus intentos.
Não há pois, o mínimo ético nesta relação, senão, o simples desejo de tomar o que não lhe pertence. A mulher do outro é vista como um trofeu a ganhar e quando se trata de ganhar um trofeu, não se mede e os jovens não têm medido.
Ouvindo-se o primeiro trecho, há unanimidade, em dizer que “este Chitsondzo, sabe o que diz e temos de facto, combater este mal”, só que; o presente que o Chitsondzo dá e propositadamente, é envenenado, na medidade em que faz logo uma viragem, para incluir todos no mesmo esquema, desde senhoras, velhos, velhas, senhores e meninas.
De facto, esta mania, não é exclusiva dos rapazes, diz Chitsondzo, pois, as meninas também, (a tintombi natona ati Sali ndzaku, tini ntungu ho biha lowu, waku tolovela vanuna va vanu) tem o mau hábito (mania) de se meterem com os maridos das outras, e idem na colocação, porque aqui, existem aquelas que somente tiram gozo da situação, quando efectivamente o homem é casado e quando não, não desperta nelas nenhuma atenção.
E seria estranho isto, aliás, há tempos, os homens, faziam questão de esconder a aliança, quando ensaiavam uma fuga, mas, de tempos para cá, a situação muda completamente, pois, as mulheres, tem a lição de que homem casado, sabe tratar e se tem dinheiro para sustentar um lar, deve ter para outros gastos, e logo vira alvo.
Infelizmente é a sociedade em que vivemos, onde já não se transmitem valores, já não se passa testemunhos, isto porque todos e cada um pensa que é conhecedor de tudo, quando de nada.
As forças de pensamento se calam, os pais se escondem, os que teimam em gritar no deserto, são premiados por AVC´s precoces e claro, há aqui, uma tendência de querer viver a vida intensamente, mesmo que para tal signifique matar Deus e/ou algum outro valor superior, para que, afinal, seja tudo permitido.
Porque e acredito, que se não houvesse essa tendência de matar Deus e seus valores, de matar a consciência do bem, não se aceitaria, que as coisas acontecessem, tal como as canta o Chitsondzo.
De facto, não é normal, que um senhor de idade, faça crescer miudinhas de 13, 14 anos, que os idosos, ataquem, as suas próprias netas, que tudo, seja feito a luz de dia e ante olhar de aceitação de todos.
Mas é claro, coloca-se aqui a questão de quem lança a primeira pedra e contra quem?!
O que o Ghorwane (Chitsondzo) fez, foi, numa sociedade, em que ninguém se propõe a discutir os seus valores, lançar as premissas para que os mesmos voltem a ser agenda.
E esta rede de interferência do rapazinho solteiro com a mulher casada e vice versa, dos senhores com as mocinhas da escola primária, da promiscuidade sexual que se vive, traduz a ideia de que é preciso voltar a discutir estas ideias, porque normalizar o anormal, nunca torna aquele lícito.
E o questionamento de que será que foste repreendido na sua educação, (Ubiwilitolo wena), põe a nu, esta inércia, porque, sob chavões da liberdade, tem se enveredado por um caminho de renúncia completa dos valores que cabem a um diligente pai da família, que tenta a todo custo, imitar o “pai fixe”, das novelas, esquecendo, que aquele, é talhado ao pormenor num estúdio e a vida real, essa sim difere, porque sempre surpreende.
Infelizmente, é difícil discutir esta ideia, quando ela é constantemente esvaziada em músicas de consumo que ensinam exactamente o contrário do que se pretende, em novelas que nunca foram na essência compreendidas pelo seu público alvo, em publicidade que se interessam no consumo e somente, na família que se desintegra sistematicamente, num sem número de situações, que banalizam o certo e esvaziam a nossa consciência comum do bem.
É lógico, que no lugar de discutir esta ideia, quando a carapuça vai servir, esta mesma pessoa, vai fazer o seguinte questionamento:
“Quem és tu Chitsondzo para me fazeres esta pergunta?”
E vai-se afundando a nossa sociedade....porque a roda promíscua de interferência, parece interessar a maioria, por isso, “ubiwilitolo wena, mas que se entenda, Ghorwane (Chitsonzdo), já lançaram com este questionamento a primeira pedra.

P:S. Um Sentimento de tristeza me assolou quando descobri que o Web Site da banda Ghorwane expirou!!! Que dizer?
Amosse Macamo

sexta-feira, 3 de outubro de 2008


Ecos da música moçambicana
Notícias 01 de Junho de 2007
Os apreciadores da música moçambicana estão divididos; enquanto por um lado temos os consumistas distraídos a dizerem que a música moçambicana está a dar, outros há que acham que esta mesma música está à deriva. A velocidade da música moçambicana hoje é medida em função da quantidade de músicos jovens que emergem como cogumelos e são lançados via editoras acopladas a produtores que também pululam nesta cidade.
Há um tempinho, decorreu um debate que se diz por aí que trouxe ilações, uma delas que remete ao facto dos músicos da velha guarda estarem sentados na sombra à espera de seja o que for que vier, sei lá de onde para lhes salvar; enquanto que os da nova guarda (ou geração!) embarcam no barco do empreendedorismo, trazendo, desse modo, música e alegria para o povo. Por razões profissionais não acompanhei o referido debate numa das televisões, daí que qualquer opinião que for a emitir sobre o mesmo será superficial e permeável.
Mas uma coisa que parece não ter transparecido no tal debate é o fenómeno que chamarei de plágio: A nova geração, a tal que está a dar, essencialmente, pega em músicas de cantores da velha guarda, de preferência os já finados, e pimba: faz o mix no estúdio, mete lá o bit que permite abanar a região pélvica de qualquer um e, com ajuda da pirataria que está em voga, lança um CD à venda no Xikelene, Xipamanine, e por aí fora. Infelizmente esta música até passa nos órgãos de comunicação social públicos.... fruto disso, já temos alguns músicos jovens empreendedores, sendo o exemplo mais fresco e flagrante desta prática a dupla Lorena & Oliver Style, que não me lembro tê-la visto no funeral de Mahecuane.
O outro fenómeno que o tal debate não abordou tem a ver com a qualidade dos clips: Sinceramente, eu tenho vergonha de ver os vídeoclips que ultimamente não só passam nas várias TV´s, como também são vendidos nas prateleiras da pirataria. As cantoras e respectivas bailarinas estão literalmente nuas, nuas mesmo e como se não bastasse, a forma tida como ideal para dançar tais músicas é o movimento da pélvis, para frente e para trás...estão a imaginar uma mulher semi nua (de boxers e soutien) a movimentar violentamente a sua pélvis num vídeo clip? Quer dizer, o mais precioso e agradável que uma mulher aprende a preservar, elas simplesmente vulgarizam. Salvo opinião contrária, não creio que isso dignifique a cultura moçambicana e, não façamos confusão entre erotismo e pornografia!!!
Em relação ao estilo de música em si, embora descartável e de consumo imediato, até é “dançável”, mas a confusão começa quando o tal compasso é associado ao nudismo e movimentos pélvicos. É que a postura das nossas cantoras e bailarinas no palco pode ser equiparada à prostituição; em que enquanto umas são pagas para se exibirem em público e satisfazerem instintos latentes dos seus espectadores, outras o são para satisfazerem prazeres e experiências sexuais ocultas e até de índole animalesco.
As letras da música
Um outro fenómeno que agora envenena a música moçambicana tem a ver com as letras da tal música jovem: Exemplo vivo: Hoje de manhã, enquanto me preparava para ir obedecer ao meu patrão, eu estava ligado a uma das várias rádios privadas, oiço uma música que me violenta a moral: diz e eu traduzo para português, o seguinte: “ estou bêbado e já vou para casa/ minha esposa diz que bêbado não faço bem/ vou lhe despir a capulana/ vou lhe trepar”... blá...blá...,e no fim, uma moça, ainda na mesma música, suspira: “ chega/ já não aguento”. Uma outra música que já ouvi, a letra fala de uma moça que não estuda, só passa a vida nas barracas; no meio da mesma, aparece a tal moça a desabafar: “loku niminhica mogama munipoyila” (depois de eu vos ter dado(...) vocês ainda gozam comigo). Mas antes disso, numa das passagens, a letra faz referência ao facto de a tal moça, depois de beber, “upfula minengue/ xikurhá” (abres as pernas e toma).
Pessoalmente não subscrevo a censura, mas a condição de os intervenientes da sociedade primarem por uma cultura e linguagem razoáveis.
Será que aquelas moças que aparecem nos clipes a exibirem e a bambolearem as bundas nuas têm orgulho e amor próprio? Será que inspiram respeito e consideração diante de seus pais, familiares, amigos e sociedade em geral quando os clipes passam na televisão lá em casa? E quando andam na rua? Infelizmente, ainda há homens que se atrevem a pedi-las em casamento...e claro, casam, depois do seu corpo e suas partes íntimas terem estado expostos como cartaz de espectáculo.
A disputa pelo lucro e popularidade leva a uma ablação da criatividade poética dos nossos músicos, para não falar da degeneração da moral, devido à exposição do corpo da mulher. Na verdade, a criatividade nunca há-de existir enquanto a velocidade e concorrência para vender mais e aparecer mais em público prevalecerem; o trabalho artístico leva o seu tempo para trazer frutos. Ocorre-me agora que antes desta geração, já tivemos muita e muita música erótica que até fazia referência ao sexo, de forma poética, sem pôr em causa a moral e pudor sociais.
José Mucavele já pedia à noiva para “alhayissa a xissaka xa lirhandzo/ nitassula nhuku/ wamawongwe” (preservar o ninho do amor para que eu, uma vez aí, possa enxugar o suor do celibato); Zeburane aborda uma situação em que a esposa apela ao marido “ unganihulumeteli/ ninga muhlezana” (pare de me roçar porque acabo de ter bebé); numa das músicas a Elsa Mangue diz que “ nitsendzelekile nanipakatse a saia/ nilava a ndzuti nihumula” fazendo alusão ao facto de ela deambular à procura de um lar (aqui simbolizado pela sombra/ndzuti) levando consigo a saia nas costas (imagina caro leitor o que é que a saia simboliza), para noutra música, a mesma cantora falar de um homem cuja família acredita que para se casar deve ir à sua terra natal buscar uma mulher original porque esta ostenta “aquelas coisas” (angani leswiyá). Os próprios Gorwane perguntam a uma moça “ukulissiwe himani/ uza ukota lani/ ufundissiwe himani/ aku jurajenta” (de referir que as mulheres nunca se esquecem do seu primeiro homem – mesmo que a lista seja infinita - e é a qualidade do “trabalho prestado” por esta mulher, presumivelmente aprendido deste homem, que os Gorwane enaltecem!).
Obliteração de cultura de um povo
Hoje, a sociedade finge que não vê estes pequenos deslizes; a cultura finge que sai a ganhar com este pseudo “boom” musical; os jovens preocupam-se com a fama e promoção imediatas; os nossos netos ficam expostos a este exercício de lavagem cerebral; e todos nós ficamos cúmplices de uma situação que se calhar podia ser evitada. Resultado? Obliteração de toda uma cultura de um povo! Enquanto algumas produtoras continuarem a olhar para os fins (e não meios), enquanto a pirataria continuar em alta, a nossa música vai-se confundir com pornografia e teremos muita vergonha de falar dela no estrangeiro. Sim ao erotismo e inovação, não à prostituição da nossa cultura.
PS. Quero aproveitar esta rara oportunidade para mandar um abraço de simpatia e solidariedade à Elsa Mangue, autora do “fim da estrada”. Quero assegurar a ela que agora, mais do que nunca, está no “princípio da estrada” rumo à sua salvação e recuperação. A minha memória ainda retém imagens da Elsa a lacrimejar de emoção no Cine-África na longínqua década 90...rápidas melhoras e breve regresso aos palcos, oh Elsinha!ANTÓNIO SAMBOFonte
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Kid Malume


KID MALUME: O outro braço de Alexandre Langa


KID MALUME vai para sempre ficar registado nos anais da história da música moçambicana como aquele que, tantos anos depois de entrar na arena artística como bailarino e corista, saltou para a arte registando um número, indelevelmente forte, porque de crítica social, e depois disso ter desaparecido. “Dumba Nengue va Khoma”, gravado em finais da década 70, catapultou Kid Malume, que de homem totalmente desconhecido em tão pouco tempo transformou-se num dos mais populares músicos da sua geração.


Maputo, Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2008:: Notícias

Kid Malume não foi um músico do tipo génio e extraordinário, mas foi feliz na sua abordagem temática, tanto é que quando grava a sua “Dumba Nengue va Khoma”, o que estava em voga era o comércio informal, pois tal como hoje, dali vinha o sustento de grande parte da população e entretanto banido pelas autoridades locais.
Dos registos arquivados e por nós consultados consta somente que depois de “Dumba Nengue”, Kid Malume terá voltado aos estúdios para gravar mais uma música, que leva o título de “Rosinha”. Esta música é uma elegia à mulher, ao amor e ao trabalho. Não há registos de que depois destas duas músicas Kid Malume tenha gravado algo, mas sabe-se que ele perdeu a vida a 8 de Fevereiro de 1996, vítima de doença, entretanto já sem estar no activo.
Quanto ao tema “Rosinha”, sabe-se que este não teve o mesmo impacto de “Dumba Nengue”, que se tornou num verdadeiro hino. Foi com esta música que Kid Malume concorreu em 1988 para o Ngoma Moçambique, tendo ficado durante largas semanas em primeiro lugar. Sabe-se, no entanto, que não chegou a ser laureado.
Não obstante isso, Kid Malume é até hoje recordado nos meandros musicais e pelos amantes da música moçambicana como o autor da célebre “Dumba Nengue”.
Este artista da canção moçambicana não morreu como músico, porque as suas duas canções – principalmente o emblemático “Dumba Nengue” – continuaram a ser ouvidas na estação emissora da Rádio Moçambique, mas infelizmente não com a frequência de outrora, tal como acontece com as melodias de tantos outros artistas da sua geração que deixaram de soar.
Para muitos não interessa o facto de Damião Lopes Massingue, nome completo e de registo civil do artista Kid Malume, não ter gravado para lá de duas canções. Mas sim o importante é o impacto que as suas canções criaram e criam no imaginário daqueles que as ouvem. Por outro lado, nem sempre gravar centenas de canções é sinal indicativo de qualidade.
Aliás, o facto de Kid Malume ter morrido sem registar um número suficiente para lançar um disco de originais, até pode servir para contrariar a ideia de que só a quantidade é que conta.
Como exemplos, chamamos para este espaço os casos do conceituado Armando Mabjaia, que também não registou muitas músicas, serem músicas que tiveram o impacto que tiveram, tendo galvanizado as massas para a introspecção quanto aos problemas de ordem espiritual, das origens e da viagem.
Zeburane (Eusébio Johane Tamele), também registou um número não muito elevado de músicas, mas até hoje é tido como um dos maiores compositores da nossa história musical, com uma forma clássica de tocar a guitarra. Os seus acordes até hoje são reconhecidos como clássicos e contemporâneos, o que chega a espantar os estudiosos destes instrumentos musicais.

Alexandre Langa

NAS MÃOS DE ALEXANDRE LANGA

Maputo, Quarta-Feira, 30 de Janeiro de 2008:: Notícias

Damião Lopes Massingue quando regressou da África do Sul, onde viveu durante largos anos, juntou-se à banda do popularíssimo Alexandre Langa. Aliás, basta recordar que pelos sítios por onde passavam eram tidos como irmãos devido à forma como eles se vestiam, tais eram as semelhanças entre ambos.
Mas, para alguns Kid Malume era o Alexandre Langa em miniatura, pois tudo o abraçava e fazia se assemelhava ao que o autor de “Mabunganine” também fazia. Do corte de cabelo à forma de vestir, até no estilo de cantar e na maneira de andar. Kid Malume era uma espécie de sósia de Alexandre Langa.
Mas, o que vai depois contar no meio de tudo isso é o facto de Kid Malume vir da África do Sul com a intenção de querer se integrar na arena musical aqui em nacional. E o terreno fértil que encontrou foi a banda de Alexandre Langa. Tanto é que eles já se conheciam. E chegado cá, terá procurado por Alexandre Langa. Recordaram os tempos do antanho, desde que deixaram as longínquas terras de Gaza, empreendendo odisseias, que os levaram primeiro a Lourenço Marques, e depois a África do Sul, e, outra vez para Lourenço Marques, onde vieram fixar residência definitiva até ao dia em que Deus os chamou para habitarem o Jardim de Éden.
Alexandre Langa é de Ndavene, no distrito de Chibuto, e Kid Malume vem de Manjacaze. As qualidades vocais e os passos de dança simulados por Malume deslumbraram o jovem de Ndavene, que já era um caso de sucesso nas pistas da capital moçambicana, tendo o convidado a se juntar a si, algo que foi prontamente aceite por Kid Malume.
Kid Malume integra a banda de Alexandre Langa como corista e bailarino. Os dois passaram a partilhar os vários sucessos, estando sempre lado a lado, mas não somente como colegas na mesma banda, como também, e sobretudo isso, bons amigos. Os dois passaram a conviver juntos e em várias ocasiões festivas e informais apareciam juntos.
Importa referir também que quando Kid Malume andava ao lado de Alexandre Langa, isto na componente musical, tinham também ao lado um outro homem, na altura sonante, que é o Francisco Cuna. Os três faziam parelha e constituíam um grande trio.

CURTA CARREIRA MUSICAL

Anos mais tarde, Kid Malume decide experimentar-se como músico. E sem abandonar o agrupamento de Alexandre Langa começa em meados da década 70 a ensaiar para registar os seus próprios temas originais. Neste processo, Alexandre Langa nunca deixou de o acompanhar, tendo o orientado até à gravação da sua primeira música, o famoso tema “Dumba Nengue va Khoma”, o que vai acontecer em finais de 1978. E já em meados da década 80, Kid volta outra vez aos estúdios da Rádio Moçambique para registar mais um tema intitulado “Rosinha”.
Depois desta fase de glórias, entre espectáculos e muita farra, Kid Malume passou a gerir crises, principalmente sociais e económicas, nos bairros onde vivia, sempre ao lado do seu companheiro Alexandre Langa.
Bairro de Maxaquene, Mavalane, Mafalala e Polana Caniço são os pontos onde Kid Malume passa a frequentar, mas já sem ser recordado como o autor de Dumba Nengue. E assim vai ser a história de um homem que foi um arauto da liberdade e da música.
Francisco Manjate

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

As mensagens veiculadas pelas músicas moçambicanas
Notícias 18 de Setembro de 2007, Opinião
Hoje discute se o eterno problema e nunca solucionado em qualquer sociedade sobre a arte de fazer música. E porque a música é arte, deve necessariamente ter seus pressupostos. Entramos no velho conflito de apreciar e depreciar certa maneira de fazer música.
Coloca-se na discussão a questão de alguma música ser considerada “pimba” e outra genuína.
É claro que nesta discussão não se deixa de lado o carácter estético que se espera nas letras e, sobretudo, a mensagem que estas transmitem. Este debate não deve e nem pode preocupar, porque acho imperioso procurar os valores da nossa música e nem que seja necessário buscá-los na sua própria incerteza, pois, que se diga, é ambígua a classificação do que seja “pimba” ou não.
Não quero, por várias razões, entrar neste debate. Quero, sim, abordar a questão da mensagem nas músicas dos jovens que tende mais ao apelo sexual e erotismo, o que indigna a velha guarda e a sociedade em geral.
Escrevo numa altura em que escuto, Zeburane, excelente guitarrista, de uma voz e trato únicos nas suas canções, homem de canções melódicas e com uma forte carga de mensagem. E ao falar deste, pretendo tomar em atenção a música “wadla bomu ke?” e o alto sentido de apelo sexual e erótico que a mesma possui.
Esta canção, a meu ver, é talvez a mais erótica, é a mais apelativa sexualmente que já se produziu nos anais da música popular moçambicana, senão vejamos:
A música retrata a história de um casal (em forma de diálogo) onde o marido (Zeburane) pretende ter relações sexuais com a sua esposa (Maria), mas esta se recusa porque tem um filho a amamentar e doente. E é justamente por esta recusa que se desenrola toda a música e com as histórias que esta acaba carregando. “Tsunela seio a nwana a vabyaku, unga ni hulumeteli ninga ku bhokola xikwembo... mina swa ni vavissa a nwana a vabyaku” (chega-te para lá que a criança está doente, não me apalpe que te insulto, por Deus que te insulto).
Quando o libido sobe, mesmo quando se sobrepõe a questão da saúde do filho, o homem não pode mais esperar e, quando frustrada a tentativa, como aconteceu aqui procura outras soluções para resolver o problema, daí que Zeburane não insistiu com a mulher, mas sim, saiu à procura de outras mulheres.
O mesmo Zeburane justifica-se quando a mulher questiona este comportamento, indagando: “não foste tu que me negaste o beijo” (a hi wena unga yala kuni nyika khissi) e, entenda-se aqui o beijo como preliminar. E num jeito de desabafo, a mulher, Maria, reclama do hábito da vida devassa do seu marido Zeburane “u tolovela ku famba vusiku nkata, Zeburane nkata”, ou seja, esse seu hábito de andar a noite, meu marido Zeburane.
Mesmo com as reclamações da sua mulher Maria, Zeburane continua a sua incursão na noite, mesmo quando corre o perigo de contrair tuberculose (u famba vusiku u ta vuya ni ndere). A conotação noite/tuberculose surge do contacto sexual casual com uma mulher que provoca o aborto sem os cuidados que este exige e logo de seguida pratica relação sexual, prática que era constante nos tempos idos.
A discussão entre o casal acaba levantando outros problemas onde Zeburane assume que tem desejos incontroláveis, mas também afirma que o mesmo não é exclusivo dos homens pois “as mulheres são umas desavergonhadas (a vavasati a vana tingana, loko vadla bomu, hambi lo tsave, tsave, u xelu xelu matilho vaya kona mpela), dito de outro modo adoram comer limão (fazer limão) mesmo que amargando, vão contorcendo os olhos e querem mais, autênticas gulosas.
E porque Maria não queria perder Zeburane para as “piranhas” da noite, acaba cedendo e mais, Zeburane vai ao pote com tanta sede ao ponto de morder os lábios da sua amada até sangrarem (a nomu wu huma ngati) provocando o seguinte protesto: “Mordeste-me os lábios Zeburane, veja que até estão a sangrar” e coloca-se a questão: a que lábios Zeburane, de tanta ansiedade fez sangrar?
Zeburane prontamente pede desculpas e justifica-se a sua esposa Maria, (e talvez aqui, fica claro de que lábios se tratava), pedindo que compreendesse que comer limão não é tarefa fácil, “... é como uma guerra onde se exige uma ginástica, uma flexibilidade, uma estratégia, um levantar para cima e para baixo espontâneo, enfim, difícil...” (mamana Maria, ni rivalele nkata, wa shi tiva swaku ma dlela ya bomu i nhimpi, iu yanunu, iu findzi, findzi, i ma rhambe rhambe).
E quando esta põe em causa os ofícios de Zeburane, este o avisa (wa ma tiva ma bela ya mina, yoba hi xikossi), “conheces a minha maneira de bater pela nuca”.
E surge de novo a grande pergunta: a que posição se refere aqui o Zeburane quando põe a questão de posicionar-se com a mulher olhando rente à sua nuca? O que está aqui implícito?
Portanto, sem querer tornar este pequeno ensaio de música de Zeburane um relato prenhe de linguagem indecorosa, quis dar a entender que se pode falar de certos assuntos delicados, usando metáforas, figuras de estilo que nos remetem a um exercício para tentar descobrir o fundo da questão. E é justamente aqui onde reside a arte. Na capacidade de remeter o outro ao subjectivismo, a um constante indagar, onde não cabe uma verdade só.
Na verdade, os músicos moçambicanos da velha guarda sempre fizeram o apelo sexual e ao “eros”, só não o banalizavam como o fazem hoje os jovens, as mensagens não eram tão explícitas como são hoje, vejam que até o próprio termo “modascavalu” que os jovens hoje acolheram apela ao vigor sexual comparando o cavalgar aos movimentos próprios do acto sexual, mas é preciso reflectir até chegar lá.
O que hoje choca e não deve deixar de preocupar é a maneira exposta e despida com que a linguagem musical é trazida pelos jovens. E pergunto-me: numa situação em que algo fica exposto, valerá a pena o esforço da procura?
Escute-se “Txongola” de Roberto Chitsondzo (Gorwane), a maioria das músicas de Xidiminguana, Mahecuane (Rosa), “Majilidana”, de Eugénio Mucavele, José Mucavele, há-de se encontrar excertos de um vigoroso apelo sexual e erotismo puro, mas sempre coberto por um véu.
Há pouco, Baltazar Macamo teve uma interpretação fantástica de uma música de Fany Mpfumo que quase todos cantavam de forma inocente e nunca podiam imaginar a mensagem por detrás e por falar em Fany talvez lembrar um outro tema o (hodi, ni pfulele nkata,...) o abrir da porta que o Fany pede, pode-nos remeter a várias outras portas, pior quando põe a questão da capulana vermelha (capulana dza libungu), que só as mulheres já feitas vergam: não será esta uma referência ao ciclo menstrual? E quando o mesmo Fany canta “ni khemeli nlhampfi leyo, loko unga no khemeli na mine ni taku tsona tsumbula, lowu wa ka kwanga wa nandziha”), ou seja, saborosa e te garanto que é mesmo saborosa” quantas interpretações podemos fazer desta afirmação. Quanto apelo sexual está lá implícito? Basta lembrar o formato de uma mandioca e o líquido esbranquiçado que a mesma produz, há-de logo aferir a comparação com o órgão genital masculino. A referência ao peixe é óbvia, é só imaginar o formato do peixe e equipará-lo ao órgão genital feminino, o cheiro.
A banalidade cansa, desvaloriza no lugar de valorizar, deprecia a mulher no lugar de a cantar e encantá-la, choca e agride, mesmo que as músicas em termos rítmicos sejam apelativas esta, acaba sufocando-as.
Os jovens deviam ser mais ousados, interpretando as suas canções não só com a mestria que agora impõem, mas com alguma arte, porque mesmo a música “pimba” tem algo de belo que se aproveita assim como algumas consideradas da velha guarda, há algumas com mensagens intragáveis.
E que dizer destes jovens que as suas músicas fazem os ambientes festivos e conduzem, embora por pouco tempo, a felicidade deste belo povo?
Merecem ou não respeito e algum encorajamento? Sinceramente acredito que sim, mas se impõe que reflictam um pouco antes de lançar a sua música, porque antes da fama existe um homem que é preciso preservar.
E a terminar, porque não chamar João Paulo que uma vez disse que a “música moçambicana não era só rabo!”.
AMOSSE MACAMOFonte
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008


Irmãos Tamele: um tributo ao amor
SR. DIRECTOR!Numa época marcadamente masculina e numa região iminentemente paternalista e por isso mesmo machista como a do sul do país e propriamente em Gaza, os irmãos Tamele apareceram com uma música que rompeu com este “status”, conferindo assim um estatuto de enunciação da mulher, onde o homem finalmente reivindicava a sua liberdade de amar, contra todos os “ismos” que reduziam a mulher a um mero objecto de prazer, procriação e mão-de-obra nas lavouras.

São vários os exemplos da intolerância desta sociedade para com a mulher e da sobrevalorização do homem como dominus. Basta lembrar que não se podia pensar nunca no facto de o homem ser estéril, pois este mal era exclusivo da mulher, daí que naquelas situações que a família descobria que o homem era estéril, recorria-se a esquemas de linhagem onde alguém da família e de preferência do irmão mantinha relações sexuais com a mulher do seu irmão. Seria esta uma forma de esconder a vergonha da família e manter aos olhos de todos a imagem do super-homem. Outras sim eram as situações em que o homem convencionava com a família da noiva, enquanto esta fosse menor para que quando a mesma crescesse, fosse sua esposa sem atender de forma alguma a sua vontade.
Ora, estes pequenos exemplos, mas grandes na sua repercussão, mostram o quão aquela sociedade era hostil a qualquer manifestação de liberdade da mulher e era sobremaneira hostil a todo o comportamento por parte do homem que demonstrasse a sua sensibilidade para com os problemas da mulher. Daí que não se poderia imaginar e nem por brincadeira que numa situação de adultério o homem a pudesse perdoar. Só não podia este homem ser banido do grupo porque tal não era permitido, mas que se diga que todo o comportamento que daí haveria de se seguir seria o de total desprezo, com o risco de mesmo naquelas situações em que o filho a nascer fosse fruto da relação marital se dissesse como se costuma dizer “a nwana lweyi a fana na wena hishi kossi”, como quem diz “este filho é parecido consigo pela nuca”, como se fosse possível este exercício de ver a própria nuca!
Não se poderia pensar numa situação como a de perdão num terreno fértil de machismo como Gaza, mesmo que esse lugar seja em Ntchanwane, terra do grande homem Zeburane (homem sensível aos problemas da mulher) que, por sinal, é pai dos irmãos Tamele.
De facto, numa situação de comprovado adultério, a mulher sujeitava-se a dois mundos totalmente hostis: o do marido ferido e o da sua família ao retornar a casa.
De facto, para além da valente sova que receberia do homem forte das minas do rand, aquela seria escorraçada até a casa dos pais, com o homem a pedir de volta as suas cabeças de gado e tudo quanto se achasse gasto para “adquirir a sua mercadoria”, para além das devidas compensações e porquê não desposar a irmã mais nova daquela?
Sem esquecer que esta mulher ao chegar à casa dos seus pais também seria recebida por vaias e insultos, pois com aquele comportamento expunha toda a sua família, para além de que esta seria obrigada a restituir o que já não possuía e de que nada justificaria uma situação de adultério.
Entenda-se, nesta sociedade o amor não tinha importância e se tinha era relativa. O feminino contrapunha-se ao sentimento de virilidade, a mulher aqui não poderia tomar posse do seu prazer tão somente reclamar o “usufruto do seu corpo” e o seu orgasmo. A tradição a confinava a mera servidora.
Ora, atentos a estes factos acima enunciados os irmãos Tamele, com a música “Tana nkata”, parecem deitar abaixo esta maneira de ver as coisas ao cantarem: “ni tirheli djoni / niya tirhela wena, niya tirhela muti, niya tirhela vana, se vanga lhupeki. Loko ni bhala tinwadi a nlhamuli aniyikumi / utchava nikuni byela swaku awuyo siya a vana voshe / tana nkata u vula lomu ungale kona / ukombela arivalelo alirhandzo lingue heli”, ou seja “consenti o sacrifício de trabalhar nas minas para o teu bem, dos nossos e da família. Tantas vezes te escrevi, sem contudo obter resposta, tiveste até medo e/ou receio de dizer que tinhas deixado as crianças entregues à sua sorte. Mas, venha amor, diga-me onde estiveste, peça perdão que nem por isso o nosso amor vai acabar”.
Quantos de nós ainda hoje têm coragem de dizer isso? Quantas famílias se desfizeram por um deslize da mulher que poderia muito bem ser corrigido com um pedido de desculpas? E porquê não temos a coragem de uma vez que isso aconteça, nos propormos a investigar as causas primeiras e últimas que levaram a mulher a enveredar por este caminho?
E não é esta a visão do homem moderno e do ocidental que procuramos a todo o custo ganhar? Onde ganharam os irmãos Tamele ideias iguais?
Será prova de fraqueza perdoar em situações similares? E quando a mulher envereda pelo adultério em muitas situações não estará a chamar a atenção de que algo vai mal na relação conjugal?
Não pretendo obter respostas e nem trazê-las, basta lembrar que muitas vezes vale a pena o exercício de questionar.
E viva os irmãos Tamele que com a sua linda canção romântica trouxeram à superfície estes modestos questionamentos. E que se diga na história da nossa música posicionamento igual não se conhece.E por que não recordar uma outra balada de amor cantada por estes a “Judite”, mas esta é matéria do próximo ensaio.
AMOSSE MACAMO

quarta-feira, 3 de setembro de 2008


10 anos depois: Arão Litsuri com a mesma cítara
Notícias 5 de Dezembro de 2007
Chegou a casa - num dia desses - com uma guitarra na mão, surpreendendo a mãe que nem sabia de onde o filho trazia aquele instrumento. Que se transformaria mais tarde numa espécie de chave. De ouro. Para abrir portas sagradas que deixariam passar aquele que viria a tornar-se num dos maiores músicos do nosso país. Arão Litsuri era nessa altura um fedelho. Conquistou a sua progenitora. Particularmente naquele dia. Ficando com ela horas e horas cantando juntos. A mãe – já falecida – era uma grande compositora, apesar de não ter sido muito conhecida por esses feitos, limitando-se aos círculos religiosos por onde ela passava. Ela libertou do seu ventre – para a luz - um filho de elevada estatura. Que passou pelo Duo Seara, Trio Hortêncio Langa, Arão Litsuri e João Cabaço e pelo fenomenal Alambique. Também Arão seguiu – como Abraão seguiu a voz de Deus que lhe mandava ao Egipto para libertar os filhos de Israel – as peugadas do seu pai: pastor da Igreja Congregacional. Formou-se em Teologia no Zimbabwe, onde esteve a estudar durante seis anos. E hoje é reverendo dessa mesma Igreja. Canta sempre na Casa do Senhor. Canta pouco – ultimamente – nos palcos. E Djeko já lhe disse uma vez: tens a voz masculina mais bonita deste país. E Arão recusa-se a aceitar isso. Ele diz que uma das maiores vozes deste país é de João Cabaço e do próprio Djeko. Está atento aos desenvolvimentos musicais do seu país e considera que os jovens que hoje aparecem estão bem naquilo que eles escolheram fazer. A música moçambicana tem altos e baixos, considera o reverendo, mas neste momento, de acordo com a sua observação, está no pico. Ele é também uma pessoa mais ou menos discreta, provavelmente pelo carácter que bebeu do pai. E isso sente-se quando está no palco e na vida. Arão Litsuri surpreende—nos agora com um livro. Com carácter religioso: “Há Negros na Bíblia?” É uma obra a ser lançada no mesmo dia em que vai tocar para apresentação do seu disco, no dia 13. E será uma surpresa para muitos esta veia literária do autor da cristalina música Malangavi Ya Ndzilo. Um livro que poderá levantar intensos debates salutares à volta da provável intervenção de africanos na elaboração dos escritos bíblicos. É um livro, portanto, que levanta questões. É um desafio. Um estudo de uma parte da trajectória de Deus. Pois é: Arão oferece-nos um disco compacto (CD) com o título: Arão Litsuri: dez anos depois. Dez anos depois de quê, se Arão Listuri canta há mais de trinta anos? Mas ele vai nos explicar isso e outras coisas nesta entrevista que se segue. Para nos falar dos seus passos, e recordar-nos que a cítara espiritual que recebeu da sua mãe, ainda se mantém na sua mão e na sua alma: a mesma cítara.
- 10 anos depois de quê, Arão Litsuri?
- Dez anos depois de ter saído de Moçambique para ir estudar no Zimbabwe. Voltei aqui para fazer algumas tarefas no âmbito da Igreja e, depois de eu ter voltado foi então quando fiz este concerto. Portanto, são dez anos depois da interrupção do Alambique.
- Por falar do Alambique, depois daqueles dois espectáculos que deram em Maputo, ficou a promessa de gravarem um disco. Em que fase se encontra esse projecto?
- Não deixamos uma promessa. O que aconteceu é que alguém gravou o espectáculo todo e ele disse que trabalharia para que se editasse em disco aquele show ao vivo. Por aquilo que eu sei a maqueta está pronta e tem qualidade. O que falta é encontrar alguém ou uma instituição para patrocinar a edição.
- Será portanto um disco de um espectáculo gravado ao vivo!
- Sim, mas é bom notar que o Alambique não prometeu nada, porque sabe que o processo é muito complicado, mas o material está lá e é muito bom, muito bom mesmo.
- Para além do Alambique fez parte dum grupo que não tinha nome. Porquê que nunca deram nome a esse trio que era composto por Hortêncio Langa, Arão Litsuri e João Cabaço?
- Este conjunto tinha nome. Esse nome era Hortêncio Langa, Arão Litsuri e João Cabaço. Nós adoptamos esse estilo e chamamos ao nosso trio Hortêncio Langa, Arão Litsuri e João Cabaço.
- Mas essa opção não era porque cada elemento da banda tinha a sua própria linha?
- Não necessariamente por isso. Nós o que estávamos a fazer era seguir uma linha. Há uma série de grupos, sobretudo duos e trios que davam ao grupo o nome de cada elemento. É verdade que cada um vinha com a sua experiência musical, isso é verdade, mas não foi bem por isso que optamos por essa linha.
- Para além dos temas que constam em Arão Litsuri: Dez anos depois, o quê que nos reserva mais para este espectáculo?
- Basicamente vou expor os temas que fazem parte deste disco. Vou convidar alguns músicos importantes na minha carreira, como o trio de que estávamos a falar (Hortêncio Langa, Arão Litsuri e João Cabaço). Vou convidar também jovens que estão na ribalta no género que eu toco e que me acompanham (Jomalu, Alfa Magaia, El Sal, Cadinho). No CD fazem ainda parte Joaquim, Naldo, Acácio e Osvaldo). Este vai ser um condimento e mais surpresas que nós preparamos e, para não deixarem de ser surpresa, eu não vou dizer.
- Como é que estão as relações do trio Hortêncio Langa, Arão Litsuri e João Cabaço?
- Sempre quando a gente se encontra, a frase que cada um lança é: epá, quando é que vamos tocar juntos e fazer um espectáculo? Portanto isso é para mostrar que ainda continuamos ligados, apesar das actividades diversas que cada um de nós tem. Há sempre no fundo de nós aquela vontade de nos juntarmos e fazermos alguma coisa e este espectáculo vai ser uma oportunidade de nos juntarmos uma vez mais. Será por poucos momentos mas estaremos lá.
- Nunca teve preconceitos por ser Reverendo duma igreja e aparecer nos palcos?
- Para mim não há preconceitos desse género, porque e olho para mim de uma forma global. Eu tenho várias actividades que as considero importantes na sociedade. A música é importante, o trabalho religioso é importante, outros trabalho que sou convidado a fazê-los são importantes, portanto não vejo problemas nenhuns em aparecer no palco e actuar. Claro que eu sei que há pessoas que podem estar a pensar que não, que ele não devia estar ali no palco, mas eu penso que eles estão se habituando a esta personalidade multifacetada do Arão Listsuri e julgo que estão a aceitar.
- Está completamente a vontade?
- Eu estou a vontade. Não estaria a vontade se eu estivesse a fazer algo de mal e aí eu procuro - quando temos certas “capas” ou chapéus – andar com um certo cuidado para não desvirtuarmos as posições que temos e eu julgo que estas actividades que eu tenho vindo a fazer não desvirtuam, pelo contrário, mostrtam um Arão Listuri real, que fez isto, que fez aquilo, que fez aquiloutro.
- Indo ao seu disco, sentimos um grande comprometimento – da sua parte - com o blues e o jazz, porquê?
- Porque eu venho de uma geração que ouviu muito esse estilo de música. O blues – falou muito bem – o rock também aparece. Mas é bom mencionar que no fundo desses estilos todos está a música tradicional africana. Nós encontramos ali o nondje – que é a influência da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD), no tempo em que eu estive lá, encontramos o munganda, que é a influência daquilo que eu vivi durante a minha permanência na CNCD. Mas é verdade aquilo que dizes, porque ouvíamos o blues, o rock e outros estilos musicais. Eles foram condimentados para dar uma vertente que é uma proposta eu faço neste CD.
- Então há uma exaltação ao blues e ao rock!?
- Eu não diria isso. Claro, quando nós ouvimos uma música, cada um tem a sua percepção. Mas muitas vezes o autor quando faz, ou o compositor neste caso, ele também tem a sua intenção. De facto peguei na base rítmica moçambicana. É preciso estar muito atento, porque mesmo nos ritmos da guitarra surgem batucadas. Quando tiras a harmonia tens que ouvir o que a guitarra está a fazer. Vais perceber que afinal tens um ritmo tradicional africano e é muito difícil perceber isso, mas está lá e os musicólogos podem estudar e encontrar isso.
- No dia do lançamento do disco, será lançado igualmente o seu livro: Há negros na Bíblia. Fale-nos um pouco sobre o alcance deste projecto.
- Quem for a ler o livro vai perceber os motivos que me levaram a elaborar este obra. Durante os meus estudos senti que há uma falta sobre a contribuição da África na bíblia, porquê? Porque nós temos visto por exemplo que Abraão emigrou para o Egipto e Egipto é África. Jesus Cristo também esteve refugiado em África. Portanto muitos líderes do povo de Israel daquele tempo passaram por África. A formação da Nação de Israel, o berço, nós diríamos que foi exactamente em África (Egipto). Então, logicamente tinha que haver uma ligação que está escondida ou que não está a ser realçada e esta é a proposta de discussão sobre se há negros na bíblia ou não. É uma tentativa de pesquisar e ver se de facto África teve alguma influência ou não nos escritos bíblicos.
- Não é um livro que nos traz conclusões?
- Não é um livro que nos traz conclusões. Traz algumas propostas de soluções, e que estão abertas para discussão. Mas quem for a ler o livro dificilmente vai descordar com algumas das conclusões que são apresentadas como propostas.
- Ao lançar este livro faz-nos lembrar que Arão Litsuri faz tudo na vida com Deus como suporte. Estaremos certos?
- Eu diria muito mais. Não só eu como pessoa. Acho que todos nós estamos directa ou indirectamente incluídos no suporte de Deus, deixando aqueles que se declaram ateus. Os demais incluem-se também no suporte de Deus naquilo que fazem na vida, duma forma genérica. Agora no meu caso específico, sim eu tenho de facto tentado relacionar a minha vida com a crença que eu tenho, com a fé que eu tenho Posso falhar aqui e acolá, logicamente, mas a tentativa de luta é essa. Que tudo que eu faça seja guiado por Deus.
- Também tem fortes influências dos seus pais, da sua mãe em particular, no que diz respeito a música...
- É verdade, porque meu pai foi pastor, deu-me uma oportunidade de crescer dentro do ambiente religioso. A minha mãe era uma grande compositora. Não foi conhecida como tal, mas dentro do círculo das pessoas com quem viveu, conheceram a ela como boa compositora e maestro também. Então eu lembro-me que a primeira vez que eu pego numa guitarra, trago para casa e toco. A minha mãe ficou horas a cantar comigo na guitarra, portanto tenho essas influências.
- E tem uma “dívida” a pagar à sua mãe, com aquela música: Malangavi Ya Ndzilo. Essa música é dela...
- Exactamente. E eu faço questão de mencionar isso aí no disco. Ela fez uma composição que cantou com o estilo logicamente daquele tempo religioso e eu peguei nesse tema e trabalhei e fiz aquilo que é o Malangavi hoje e é preciso dar uma homenagem a ela. E a minha mãe faleceu.
- Falar de Arão Litsuri é falar de uma figura portentosa, mas que nunca foi à escola de música, apesar de ser um grande músico...
- Nós nunca fomos a escola de música. Claro o Hortênco Langa está agora na universidade a estudar, mas tivemos sempre a oportunidade de ouvir muito, porque a escola da vida, a escola prática, também é uma escola. Foi ouvindo diversos estilos de música que crescemos. Isso nos ajudou a estar bem informados musicalmente e isso aliado a prática, ao exercício. Nós ensaiávamos muito naquela altura. Também tínhamos muito tempo e neste processo nós fomos nos interessando por alguns escritos na área musical. Eu li muito: introdução à música, a composição, interpretação, harmonia, as melodias... então sem ir a carteira, hoje me considero diferente daquele músico Arão Litsuri dos anos 80.
- Arão aprece poucas vezes nos palcos. Isso não poderá afectar, de alguma forma, a sua performance?
- Boa pergunta essa. Acho que um músico devia aparecer regularmente. Vai ver que houve um período que eu não podia fazer isso. Hoje vai depender das oportunidade que surgirem à frente. Agora tenho algum tempo para me dedicar também a prática musical.
ALEXANDRE CHAÚQUEFonte
Seu Comentário

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Cabaço



Minhembete mho halaca/loku nikhumbuka Mafalala/Mafalala tiku la va khaveli va bola/Mafalala tiku dza va tsali va swihitana...ni Dzimuca Billy Cuca...ni dzimuca la vanene.....

a eterna necessidade de passagem de testemunho

Caderno Cultural

Ximanganine e o seu inseparável bandolim
MÚSICA - Bandolim de “Ximanganine” sem seguidor
O país é rico em exímios guitarristas, percussionistas, baixistas, bateristas, saxofonistas, flautistas, teclistas entre outros. Todavia, infelizmente já não se pode dizer o mesmo quando se fala do bandolim. Este instrumento, é até este momento o único que é executado por um único músico conhecido: Ernesto Ndzevo “Ximanganine” da banda “Os Galtons”. E Ndzevo está triste com isso. Na sua óptica, não é razoável nem compreensível que até hoje o seu bandolim ainda não tenha um único “continuador”. Estranhamente, num país cheio de valores. Particularmente a nova geração de instrumentistas.
Maputo, Quarta-Feira, 20 de Agosto de 2008:: Notícias

Ernesto Ndzevo foi entrevistado há dias pelo “Notícias”, a propósito da saída do álbum “Os Galletones Vol.1”. Na conversa ele fala do álbum que pretende homenagear os ex-colegas da sua banda perecidos, nomeadamente, Abílio Mandlaze, Aurélio Mondlane e Salomão Muchanga.
Ximanganine conta que ele “herdou” o bandolim das mão do rei Fany Pfumo. Foi com esse instrumento que Fany compôs parte do seu vasto repertório: músicas emblemáticas como "Gerogina", "Famba ha hombe", "Hodi", "Avasati vá lomu", "Vá ta famba vá ni siya" ( só para citar alguns que são verdadeiros hinos da música moçambicana).
Conta que Fany Pfumo, era exímio e mestre de bandolim e na sua qualidade de defensor da marrabenta sempre soube transmitir os seus conhecimentos a outros cantores, caso dele próprio.
O bandolim que ele toca, é propriedade da Rádio Moçambique. Pertencia a Orquestra Sinfónica da Rádio Clube de Moçambique, antes da Independência.
Hoje, Ximanganine está preocupado com a falta de um continuador deste instrumento. Para ele, não é de todo compreensível que neste momento, ele continue a ser o único a dedilhar este instrumento.
E por ironia do destino, o próprio Ximanganine com oito filhos, (quatro rapazes e restantes meninas), nenhum seguiu a arte do pai. Ou seja, nenhum toca bandolim nem qualquer outro instrumento.
A este propósito, recorda que no tentado dar aulas de bandolim na Casa da Cultura do Alto-Maé, mas o projecto redundou num fracasso. Conta que inicialmente hoje muita aderência, mas aos poucos o entusiasmo se esvaneceu.
Questionado sobre as causas, ele fala, em primeiro lugar, de um mercado que não comercializa este tipo de instrumentos musicais. “nas lojas de especialidade vende-se um pouco de tudo, desde chocalhos, bateria, guitarras, flautas, saxofones, trompetes, congas, pianos etc. Mas não se vende o bandolim, nem os seus acessórios”.
Prossegue, “a falta de instrumentos levou a que os meus alunos desistissem. Eles não podiam praticar sozinhos em casa. Para além de que o meu bandolim era o único...Eles mostravam vontade de aprender, mas infelizmente não tinham condições materiais para continuarem. E foi assim que a turma mais tarde, se reduziu a nada”.
O DISCO “OS GALLETONES”
Maputo, Quarta-Feira, 20 de Agosto de 2008:: Notícias

Com acordes de marrabenta, o disco “Os Galletones Vol.1” editado pela Vidisco, possui 10 faixas. São músicas cantadas quase na sua totalidade pelos malogrados da qual a homenagem se dedica.
São os casos de, “Vaye Kwine Vana Va Mina”, “Basse Phindela Awukatine”, “Dona de Casa”, “Psadanissana Va Vassati”, “Dibendoda”, “Baleka Axikhomu ka Gaza” e “A Nove ni seis 96”.
As restantes são cantadas por Ernesto Ndzevo, “Tshaia a viola Nkata”, “Muti Wamaguwa” e “Muziya Magikha”.
Segundo informou o entrevistado, a produção musical deste álbum contou com Pedro Chau e Abílio Mandlaze na guitarra ritmo, Américo Mavui e Pedro Mangai nos coros, Ernesto Ndzevo na guitarra solo e Pedro Chiau no baixo. Nas vozes cantou o próprio Ximanganine e o falecido Aurélio Mondlane.
A obra é totalmente uma delicia de marrabenta. Os instrumentistas participantes neste primeiro Volume, mostram todo o seu saber e profissionalismo.
Estas musicas foram gravadas nas décadas setenta a oitenta nos Estúdios da Rádio Moçambique, no formato magnético, com a máquina ora rudimentar de “quatro canais”.
Para concretizar esta idéia, Ximanganine, que também é funcionário da Rádio Moçambique, encetou negociações com aquela estação radiofónica. A negociação teve um desfecho feliz. Até porque, segundo revelou, o contracto entre estes artistas e a Rádio havia expirado há algum tempo.
Antes porém, conta ele que juntou as viuvas e alguns filhos dos homenageados, onde lhes transmitiu o espirito do projecto. As partes intervenientes mostraram interesse e colaboraram sem qualquer objeção. Chegaram ao consenso de que a mesma seria editada pela Vidisco-Moçambique. Por outro lado, conta Ximanganine, foram respeitados todos os direitos autorais sobre a obra. Ou seja, as viuvas, herdeiros e detentores de direitos autorais beneficiaram de algum valor monetário).
Albino Moisés

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Modaskavalu: Zeburane N´kata

Modaskavalu: Zeburane N´kata

página em construção

esta página está em construção, convido desde já a qualquer um que se identifique com a mesma, para juntos dançarmos o modaskavalu, marrabenta, senta baixo a xi tlakula guinhá/he he he he he!
u djula mani ku lava vi bidzi/ni djula ntsongo shingani manstofa
daka daka dza mingue/daka daka dza minengue....
marongas e mulheres e o amor, só eles mesmos...

Zeburane N´kata


Zeburane N´kata

Sou um apaixonado pela música de Eusébio Johane Tamele (Zeburane). Admiro a sua graciosidade, a alquimia das suas músicas prenhes de sensualidade e com uma harmonia e estilo únicas. Cresci a ouvi-las e desde cedo, amarrei-me a elas de tal forma que não conseguiria viver sem. Minha mulher sabe.
Mas se a minha mulher sabe e sempre aceitou, é porque sempre tive o cuidado de a chamar atenção a beleza das músicas de Zeburane e especialmente da mensagem por detrás.
O que Zeburane canta, não difere do que cantavam todos os executores da música moçambicana na zona sul, onde, vestiam a pele de mulher sofrida e reclamavam da vida dura imposta pelos seus amados, só que este é para mim o primeiro entre os iguais.
Primeiro na delicadeza com que trata o problema da mulher, na sensibilidade para com a sua dor, nas lágrimas das cordas da sua guitarra que sabem bem ao choro de uma mulher, na verdade, o eu-musical de Zeburane é o feminino sofredor, cantando a dor do amor não correspondido e a desilusão de ter casado com um homem que no início do namoro aparentava ser afável, mas quando casado, descobre-se o seu lado obscuro.
De facto, se pegarmos na música tlhavela lhanga lhokweni (ni ta kota niti singuela ka wena mina..), encontramos aqui uma mulher, que reclama do comportamento do seu marido que mudou radicalmente desde que esta passou a viver com ele. E recorda que nos tempos em que namoravam, aquele, fazia de tudo para a agradar, chegando até a sujar as calças de tanto ajoelhar e pedir para que ficassem juntos (awuni shenguetela nandzali kaya a wu pswuka ni mabuluke hiku ndunzda/nhamuntla honi dindrikissa juru, nhamuntla honi dikinha, aku tshava ku ti sunga, se ni to ini, kambe nhumpfu ai fembanga nwashanga hambi nio ti tsamela ka mamani mino.......este homem, de facto, fez de tudo para ficar com a mulher que gostava, mas. logo que consegue, em vez de a valorizar, passa a ter um desprezo por ela, e chega esta, de tanto desespero, a não excluir a hipótese do suicídio, mesmo que tenha medo de o fazer. E lamenta-se dizendo, “se pudesse prever o futuro, jamais saia da casa da minha mãe”. Agudiza a já penosa situação desta mulher, o facto dela ser estéril daí que diz, já mesmo desesperada, “vou-me suicidar por sua causa” (nita kota niti sunguela ka wena mina), na verdade, um verdadeiro acto de desespero.
Alberto Mucheca, outro homem de trato fino nas suas músicas, já cantou algo similar na música “mamani ni rhivalele”, quando diz na voz de uma mulher que casou-se com um homem que tinha carro e trabalhava na África do sul, enquanto a namorava encheu-a de promessas, mas, logo que a tira da casa da mãe o cenário muda; já não mais subia o carro e quando questiona, a resposta é a porrada (nilhamuliwa hiku biwa mina) e desabafa, “melhor é voltar para a casa dos meus pais (shi tluliwa hi tlelela kaya kava tswali va mina.)
E num tom de arrependimento diz “mãe me perdoe (mamani ni rhivaleli/ni khaulile mina mamani), aprendi a lição”, e já arrependida diz, “porquê não ouvi seus sábios conselhos?”.
E é o mesmo Zeburane que volta a explorar o mesmo tema em “rhumba rhumba tchatchatcha”, quando reclama e sempre na voz da mulher sofrida o homem que a tira da casa dos seus pais, para a fazer sofrer e diz “todos os dias levo porrada, sem ao menos saber os motivos (siku ni siku niwaku biwa mina, shihono shakona anishitive kassi) e quando entendes, ficas 3 semanas fora, sem comida e as crianças a passarem fome e privações (nishakudla awuni nhiki lamuntine vatsongwana se vho rhila hi ndlala, yi yowe yowe yowe tchatchatcha, holava kuni txinissa tchatcha mina), só queres me fazer sofrer, definitivamente, me fazer sofrer.”
Esta canção, é cantada entre choros e lamúrias, na verdade, pode-se fazer até o exercício de imaginar a posição em que se encontra a mulher a cantar esta canção; com a palma de uma das mãos apoiadas na bochecha e a outra em volta da cintura de pé e encostada a uma árvore.
E volta o mesmo Zeburane à carga com a música “ni tseleke mati ya mina shivavene, nuna wa mina hatavuya hata lhamba, koza ku pela ma khutla maba tlutlani.....”, preparei a água de banho, a pensar que meu marido vai voltar e tomar, meu azar, porque os sapos se fizeram a nado e ele jamais voltou.....
Reparem; esta mulher, teve que percorrer quilómetros a busca de água, depois fez-se mato adentro e procurou lenha, que teve depois que rachar, fez o lume e quando viu que era hora do marido voltar preparou um banho quente, tudo feito para agradar.
Um verdadeiro acto de amor que se diga, porém, frustrado pelo marido, que nunca mais voltou, ao ponto das rãs mergulharem na água...”madjembeni”, este marido.
Mas esta do marido que desaparece de casa por alguns dias sem dar notícias de onde se encontra já foi também cantado pelo Mandlazi com a música he nwana mamani anuna wa mina/ni ta ti sunga juro hiwu gueleleguele a nuna wa mina”, um homem que quando saia de noite voltava dia seguinte e também nesta a mulher chega a questionar ao marido se queria que esta se suicidasse pelo seu comportamento, porque as outras mulheres chegam até a gingar com o seu marido “vanuanhana kuloni va gingara hi nuna wa mina” a ma beijo ma beijo, va beijarana ni nuna wa mina”, mas saiba, diz a mulher já cansada de tanto chorar, onde tu fores Mandlazi, doravante iremos juntos. (lomu uyaka kone, nkata mina ni tafamba nawena.)
Mas o foco aqui é Zeburane, um homem que nunca se esqueceu da mulher e dos seus prantos, que sempre cantou a sua beleza, sua tristeza, suas frustrações, um homem que se superou na sua sensibilidade e soube em plena região dos machos magaízas e bendasporros de Gaza, trazer a sempre ofuscada voz da mulher. A este, a minha vénia, sempre e juro nunca vou fazer a minha mulher e nem mulher nenhuma, dançar rumba rumba tchatcha tcha...mas promessas são promessas e de promessas Zeburane está cansado.

Amosse Macamo

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mandjolo


esta foto é de um grande músico de raiz; Costa Neto....diz-se dele, que mesmo na diáspora, consegue manter a raiz e cultura moçambicana vivas....para mim, Costa Neto, nunca saiu de Moçambique, ou então, nunca conseguiu sair, mesmo quando pensou ter saido....sobre ele ainda vou falar, aqui no Modakavalu.

Mandjolo, kembaku, se queres a ouvir a música do Costa, online, incluindo Mandjolo, por favor va para o site www.myspace.com/costaneto