terça-feira, 24 de março de 2009

Modaskavalu faz hoje 1 ano


Modaskavalu faz hoje 1 ano e seu autor 32 anos
Quando Mahecuane e Fany, gravaram em 1955 a melódica e estonteante música modaskavalu, por sinal nome do Blog, podem tê-lo feito na espontaneidade e neura que lhes caracterizava, mas, o que não podiam calcular, é que, volvidos 54 anos, a música, mantivesse o mesmo sabor e encanto.

De facto, a música modaskavalu recusa-se a decadência em massa da nação cultural, e é este, o espírito do blog, que é de trazer o sentimento de imortalidade dos nossos lídimos sabores musicais, traduzir a voz dos seus fazedores, vasculhando-lhes os sentimentos, o interesse social, a faceta poética, a beleza e estilo da sua composição, dor, alegria, sofrimento; a verdade humana.

Assim, Modaskavalu é uma compensação para as minhas dores. Dores de toda a babel de sonoridades inexpressivas que nos invadem diariamente, na rádio, televisão, na rua e mesmo quando dormimos.

Hoje, o blog, faz hoje 1 ano de vida, idem, para o seu autor, que faz, 32 anos, os dois nascemos no dia 24 de Marco.
Ora, não seria de bom alvitre, que os dois, não viéssemos aqui, neste baile, onde sempre dançamos a boa música com os bons amigos, para juntos festejarmos.

Nesta altura, que o tempo me escasseia e mesmo assim, não pude evitar passar por aqui, para celebrar convosco, meus bons amigos do Modaskavalu, (que quando o tempo, permitir, farei a questão, de trazer o nome de cada), e dizer obrigado, por vocês estarem sempre ai, e sempre dispostos, a darem pouco do vosso precioso tempo para o Modaskavalu.

O meu eterno Khanimambo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Crónicas de Alexandre Langa: Madlaya Nhoca


Madlaya Nhoca

Mamani nishi khumile mina
Hiwo nengue lowu
Mayo nishi kumile mina
Hiwo nengue lowu

Ungama kuma madoda mayetlele unga ma pfucha wena
Haikhona

Loku ndzi fulela a ti hindlo vale nima dlaya nhoca
Nitaze nissukela amissava mina nandzo hlupheka

Mamani nishi kumile mina/may vavo nishi kumile mima/nyandayeyo nishi kumile mina

Aku heleliwa hi bonance vali nima dlaya nhoca (…) – Alexandre Langa



Alexandre Langa é um exímio tocador de sino do nosso país. Com suas músicas, sempre soube tocar no mais saboroso e lídimo sabor moçambicano.

Não é por acaso que já foi arranjista das músicas do mestre Fany. Isso para dizer que só alguém com mentalidade de Rei, para assessorar o Rei.

Cresci a ouvir suas músicas e mais, histórias de vida que jamais se apagarão da minha memória. A que hoje vos vou transmitir é fruto desse tempo passado, que teima em assombrar o meu presente; e ainda bem que é assim.

Conta-se que os Régulos de ontem eram verdadeiras autoridades, aliás, só o Induna (Regente), o que em termos de hierarquia vinha logo abaixo do Régulo era uma verdadeira autoridade (quem conheceu o Induna Hubu Hubu de Chibuto, sabe do que falo).

Dizia que os Régulos de ontem eram verdadeiros conhecedores das suas gentes, da sua terra, dos costumes, tradições; autênticos pacificadores, a quem importava, acima de tudo, a concórdia do seu povo e a manutenção dos bons costumes e das boas práticas sociais. Logicamente que tinham seus erros, porque humanos.

No tempo para o qual recuo, os homens passavam entre um ano/ano e meio nas minas e suas mulheres eram deixadas atrás. Vale a pena observar que o adultério naquela altura, não andava em voga como anda hoje; não que não existisse, mas era raro, porque a sociedade era vigilante e severa contra esta prática.
Ora, perante este cenário, como se arranjavam as mulheres, nas suas necessidades e reconhecendo-lhes a fragilidade própria dos Homens?

Porque a família naquele tempo era um instituto a preservar, e para que esta não se corrompesse ou corresse o risco, isto pela ausência dos maridos, o Régulo adoptava esquemas próprios, para manter a sua comunidade em convivência sã e pacífica.

O Régulo tinha seus infiltrados em todas as áreas e, às massungukhatis incumbia, fazer o controlo cerrado das esposas dos homens que estavam nas minas, escutando-lhes as dificuldades, os anseios e, quando se apercebessem que uma, duas ou mais mulheres andavam com os nervos à flor da pele, com intrigas desnecessárias, sempre nervosa e com dores de cabeça típicas, tratavam de comunicar ao Induna e este por sua vez ao Régulo que tinha a missão de mandar um homem para a casa daquela (s) mulher (es) para matar a cobra (dlaya nhoca).

Este homem ia lá no final do dia e matava de facto a cobra (vá lá a mulher ser picada por uma cobra enquanto há homens para matá-la?) e dia seguinte a mulher que andava com nervos à flor da pele, irritadiça e tudo, já estava toda sorridente e já não era foco de tensões.

Nasceu daí a expressão madlaya nhoca, para designar aqueles homens que não iam às minas da África do Sul, lugar onde era reservado a homens viris, para, em terra, ficarem a resolver os problemas fisiológicos das mulheres e mais.

Na verdade, o termo madlaya nhoca (o que mata a cobra) era pejorativo, isto porque, estes homens eram tidos como fracos e, ao mesmo tempo, invejados pelos magaizas que no fundo sabiam que qualquer um deles podia ter passado pelas suas casas, com pretexto de matar a cobra.

Mas se engana quem pense que o madlaya nhoca poderia ser qualquer, pois, estes, eram criteriosamente seleccionados, de tal sorte que não se aceitava, que este, depois de matar a cobra o revelasse a alguém: era um segredo, que deveria levar a cova, isto porque as mulheres tinham seus maridos e, na verdade, o Régulo, com aquela medida, matava um mal maior com o menor (não enveredasse a mulher por esquemas de adultério, quando por algum esquema oficial a podiam oferecer uma espécie de brinquedo, para satisfazer as suas faltas).

Eram, na verdade, esquemas que garantiam uma certa tranquilidade social, uma estabilidade no lar, um arranjo que ante a fragilidade humana, pedia um meio-termo.

E o Alexandre canta esta realidade; na verdade, diz que só pelo facto de ter caducado o seu visto de trabalho (bonanci) “vali nima dlaya nhoca”, o rotulam de “madlaya nhoca.”

Reivindica o Alexandre, o estatuto de homem, pois, a sociedade naquele tempo, tinha no mineiro, o homem típico, onde o resto, não passava de resto.

É só lembrar uma música que andava em voga e o amigo leitor deve se lembrar que dizia”awu yanga djoni bavo/ yi-ó, utsamela ku hala makoko /yi-ó” (não foste a África do Sul, para ficar a raspar a codea na panela). Fica aqui claro, a ideia que se tinha do homem que não ia as minas.

Mas os homens que ficavam em terra tinham a sua importância, tinham a sua tarefa e contributos reais na sociedade.

Vezes sem conta, eram os mesmos que arranjavam as coberturas das palhotas (loku nifulela a ti hindlo vali nima dlaya nhoca), alimentavam com histórias mirabolantes os filhos dos magaizas, povoavam seus imaginários com contos das terras onde seus pais estavam a trabalhar, resolviam os desafios reais do momento, e, meia volta, eram tidos como madlaya nhocas, até, na inevitável situação em que o homem não mais podia retornar as minas, porque caducado o seu visto de trabalho (ni heleliwa e bonanci vali nima dlaya nhoca).

Num gesto de desespero remata e quase a finalizar que “acabarei partindo desta terra a sofrer” (n’taze nissukela a missava na no hlupheka); o que hei-de ver por andar minha mãe, o que hei-de ver por ter nascido/por viver (…mamani nishi kumile mina/hiwo nengue lowu…).

Alexandre nega, com esta música, a perspectiva redutora de que o homem que não ia as minas, não era homem e se homem, um madlaya nhoca, desprezível a quem era incumbido resolver nenhures.

Mas mesmo madlaya nhocas, estes, tinham ou não a sua função social? Era de todo desprezível o trabalho que faziam? Até que ponto, aqueles contribuíram para a estabilização dos lares dos magaizas?

Mais que respostas, apenas questionamentos, porque vale a pena questionar até aonde não se deve.

E mesmo a terminar, porquê não chamar uma outra música de Alexandre que em tempos virou hino não dos madlaya nhocas, mas de magaizas:

Vali nimu djoni djoni mina
Hi ndlala hingaku rhuma djoni bava hi ndlala
Vani tchula nima vitu/hi nldala hingaku rhuma djoni bava hi ndlala
A djoni aniku lavanga/hi ndlala hi ngaku rhuma djoni bava


Como quem diz: não quis ir as minas, a fome é que me obrigou…rotulam-me, dão-me nomes (mamparra magaiza, mafundha djoni, um djoni djoni), mas a fome é que me obriga a ir à África do Sul.

Deve o amigo leitor, perceber que o magaiza, não tinha grandes escolhas e mesmo que essas significassem deixar por trás a família e esposa com todos os riscos, principalmente dos madlaya nhocas.

Amosse Macamo/arranjo de texto do Dr. Julio Mutisse

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Hortencio Langa, o poeta das boas essencias

Kudakabanda, um disco que deve ser reeditado.

Admiro a autenticidade dos fazedores da boa música moçambicana. Cada executor tem a sua linha. É lógico, que esta se encontre algumas vezes com a linha de um outro, mas, mais distancia-se do que encontrar-se.
É só pegar, a linha de execução de José Guimarães por exemplo, é uma linha única e é isto, que faz dele o excelente executor que é, e o torna diferente dos demais, embora se possa encontrar algumas linhas comuns, com alguns artistas, exemplo da música “masseve”, que se confunde com a música “ho hanha kuti vonela” de José Barata.
Hortêncio Langa tem também a sua linha característica, uma fórmula única, uma forma musical difusa, marcada não só por estilos nacionais, como a fuga para o jazz e mais outros estilos internacionais. Costumo chamar o Hortêncio Langa, de poeta da vigília e de boas essências.
De vigília, porque sempre lúcido, sempre acordado para a intensa actividade que é a vida artística, aberto a novas tendências, sem contudo se desviar da sua linha.
De boas essências, porque, a sua música é perfumada por falas tão doces e leves cujo trato, lhe segue José Barata.
Sim, estes homens têm um verbo poderoso e leve, têm claro, formas de execução diversos, mas planos estéticos idênticos.
Eles cantam suas letras e melodias, como se estivessem a descarregar, constantemente a música de algum peso que a sufoque. Como se escolhessem as palavras que compõe as letras pela sua beleza e não pelo significado.
Hortêncio sabe lapidar suas canções, sabe analisar o social com um toque de classe, concretiza seus temas com uma execução rítmica própria de quem conhece a escala.
Semana passada, despertado pelo encontro do acaso que tive no Gil Vicente com ele, decidi rebuscar suas músicas.
Kudakabanda, foi a primeira música que ouvi e que se diga, a riqueza multiforme de melodias ali exploradas, levou a necessidade de ouvir o álbum todo e surpreendi-me:
Hortêncio fez no Kudakabanda, um álbum futurista.
Aquando do lançamento do álbum, e talvez influenciado pela fraca capacidade de análise, não encontrei, o peso estético que esperava encontrar do Langa, isto porque naquela altura, interessava-me apenas ouvir e não analisar e alisar. Não achei o álbum tão forte, como a personalidade do seu criador.
Mas o tempo, este nivelador, me provou o contrário; Kudakabanda é um álbum e tanto, é uma frescura de palavras ditas com maturação de um homem que aprende progressivamente, é uma mescla de sons marcados pela perfeição.
O desafio maior e certamente o mais estimulante no álbum situa-se nas letras do Hortêncio que constituem um infinito jogo de palavras que se espelham reciprocamente.
Rompe no seu cantar com o tradicional e com os seus próprios limites tradicionais e sob uma bandeira de poetização do seu discurso, vai construindo letras leves reveladoras de um certo nível de investigação literária, o que não é de estranhar, pois Hortêncio é também para além de músico, poeta confesso e com obra no mercado.
No entanto, não se trata de um discurso preocupado somente com os níveis estéticos, pois, há nas suas letras, outras verdades que devem ser descobertas, como quando diz na música Gha Tchotchovolo que ….swaku phuza niku gha tchotchovolo/kambe mundzuku ka siku loku ni pfukile/ni yinguela vanana vani kombela shinkwa/pawa. Shiriloooo (a mania de beber até cair quando no dia seguinte ao acordar ouve as crianças a pedirem pão e são prantos.
Quantos de nós nos revemos nesta música e se não, quantos amigos e familiares que conhecemos, que tem essa mania de esticarem o máximo, (bebendo até cair de costas) quando sabem que em casa falta até pão.
Outro factor é o arranjo desta música e honestamente, se tivéssemos no país, um top 10 das músicas mais bem produzidas, esta havia de constar.
Ou quando diz numa outra música que “…é preciso encher de mundos, esses olhos ocos/que flutuam perdidos na cegueira do pensamento (…)
É preciso espantar a morte/sacudir os vendavais/abortar a fome na terra grávida/terra grávida de 12 meses/ e mãe por mil vezes,”
quanta poesia aqui existe? Quantas verdades ditas em duas palavras apenas?
Esta, é sim, a face poética do Langa a que fazia referência acima, poesia que se pode sentir e viver na música que dedica a cidade das acácias, onde diz entre outras palavras que “Maputo.cidade, como tu não há/com toda vaidade…/cidade surpresa/quem não te quer cantar/se tua beleza tem tudo para encantar (…), é a leveza das palavras a que me referia, que fazem do Langa, o poeta das boas essências.
Segunda-feira, aproveitei e dei um giro nas prateleiras das nossas discotecas e não achei sequer um disco de Hortencio, contudo, a admiração que causa este disco, sempre que é tocado, o menor número de tiragem que teve, a poesia e beleza das músicas, o arranjo fino que deveria inspirar as novas gerações, o som leve e sempre a desaguar no mar da verdadeira canção, leva-me a concluir que o Kudakabanda, deveria ser reeditado, talvez, aditando-lhe umas duas novas músicas, o que não sufocaria o disco, se levarmos em conta, que tem apenas 8 faixas.
Está agora lançado o desafio e espero que o Hortencio me responda e com uma resposta única: reeditar o Kudakabanda.
Então ó poeta da vigília e das boas essências: sai ou não o Kudakabanda?
Amosse Macamo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ghorwane: quem é rei nunca perde a majestade

Ghorwane: uma vez rei, sempre rei

Foi uma noite inspirada, uma noite de liberdade, de aventura, de volta, com melodias que proporcionaram aos presentes uma espécie de embriaguez prenhe de entusiasmo e fervor.
É que, não víamos Ghorwane a actuar já faz um tempo, pelo que antes do reencontro com a banda, o receio tomou conta de todos nós, onde não podíamos deixar de questionar, que Ghorwane nos esperava naquela noite?
Os que chegaram cedo, devem ter se apercebido, logo na primeira musica que Ghorwane, continuava a mesma banda de sempre, e que, as longas ausências no palco, só trazem, mais magia, mas espontaneidade, mas vibratilidade, mais profissionalismo, sim, Ghorwane confirmou que quem já foi Rei, nunca perde a majestade.
Infelizmente, não cheguei a hora marcada para o concerto, pelo que escusado falar do que não vi e pelos outros. Na verdade, cheguei as 23 e 10 no momento em que a banda tocava a música Massotchua de Zeca Alage.

Insólito
Não é normal em Moçambique a lotação de um espectáculo esgotar. Mas, o de Ghorwane esgotou.
Encontramos na entrada uma multidão de pessoas de certa forma revoltadas e desoladas, isto porque, não mais podiam entrar, porque os bilhetes estavam esgotados; “isto não pode estar a acontecer”, pensei comigo.
Sorte e fruto de conspiração dos Deuses da arte (sei que existem), um casal de 4 pares, ia desistir de entrar, justamente porque contavam comprar bilhetes para o segundo par no espectáculo. O outro par já tinha os bilhetes e foram esses que comprei para poder partilhar convosco estes bocados.
Mesmo com os bilhetes na mão, a equipe do protocolo, não mais nos queria deixar entrar, porque casa esgotada, contudo, valeu o bom senso do chefe do protocolo que desbloqueou os caminhos para a nossa entrada.
ouvia-se nesse instante Massotchua; eram 23 e 10.

O espectáculo
A Banda Ghorwane, mostrou que não só trabalha com os instrumentos, como têm vontade de os dominar e submeter; sim, no sentido de os instrumentos fazerem exactamente, o que eles querem.
De fora, parecia estar a ouvir um disco a tocar, tive, de entrar na estreita Rua de Arte, que ficou mais estreita no sábado, para confirmar: é a banda a tocar.
Instantes depois, de massotchua, seguiu-se Majurragenta e no fim as pessoas gritavam bis; então podemos acabar com o espectáculo? Questionava o Chitsondzo.
Um não fervoroso e sofrido foi ouvido. Então porquê pedem bis, enquanto ainda estamos a cantar e vamos trazer mais canções?
O pedido de bis, surgiu porque, o David Macuácua, sabe ser e não ser quando canta Majurragenta, já me explico:
Macuácua, quando canta esta música, sai de si, para dar ao seu corpo, a alma de Zeca Alage e meia volta, desperta num esforço inconsciente onde ele mesmo, dá o seu cunho a música: sublime!
Por isso o bis, mas, vibraria mais o público com a música Xai-Xai bem alicerçado por um saxofonista de têmpera rija, que entre sustenidos, ia-nos levando numa viagem de canoa e em águas límpidas, para uma terra que viu nascer estrelas: Xai.Xai.
O facto de ter chegado tarde ao espectáculo, trouxe-me receios fundados: não sabia quantas músicas tinha perdido, e se as músicas perdidas eram aquelas porque tanto ansiava ouvir.
Uyo mussiya kwini de Pedro Langa, era uma das músicas que espera ouvir e foi, a música à seguir a Xai-Xai.
Em tal imaginário, fui buscar Pedro Langa na voz do Roberto Chitsondzo e percorri distâncias conhecidas e desconhecidas: sim, a da vida e da morte.
Viajei distâncias numa canoa de sons executados com totalidade. Sim, numa completude e perfeição que não me deixou, mais pensar na morte, senão, na celebração da vida e por uns instantes, ressuscitei o Pedro Langa.
Vana Va Ndota foi a música que se seguiu e com ela, seguiu-se também o delírio, pois, a banda, numa interacção com o público, fazia um brake e quem ficava Ghorwane éramos nós o público.
Esta música, carrega também consigo algumas mortes que não consigo matar, como diria a minha amiga Nyabetse: as minhas mortes.
Veio a seguir, Beijinho e fiquei extasiado e ao mesmo, com receios de que aquela fosse a última música da noite. Ao meu lado, desfilava um grupo de estrangeiros, que se diga moças lindas a quem dediquei o my kisse’s your kisse’s honey, tive depois que explicar que era casado.
O Macuacua falou depois que, aquele era o espectáculo de abertura e que seguir-se-iam, muitos outros. E porque entendi, que aquele era uma espécie de mensagem de despedida, eu e os Matines (Jorge e Eduardo), gritamos por mais cinco músicas.
Veio a Ku hanha para fechar a noite.

E no final?
Veio a frustração do espectáculo ter que terminar, o delírio e a apoteose, a lembrança de um tempo que se tornou realidade, a saudade contraditória e paradoxal, a identidade, o orgulho de ter ainda referências.
O concerto, foi como que uma devolução da auto-estima, de identidade perdida em noites do nada fazendo só kahtla, foi assim bem interpretado o momento, pelo próprio Xitsondzo que disse ser aquele, uma forma de isolar a mediocridade, um apelo, forte de fixação e enraizamento.
A ideia final é a de que o espectáculo soube a pouco, porque queríamos mais, mais e mais. Mas, é como diz o poeta de Ndavene que “xicafo xau lombe va kampfula na shaha lombela”

Curioso
Não vi fixado em qualquer parede da rua de arte e/ou palco, algum dístico de patrocínio do espectáculo de Gorwane, o que me fez, pressupor, que aquele, era fruto do esforço próprio do grupo.
Na verdade, esta informação acabou sendo confirmada por David Macuacua numa conversa telefónica que tive com ele no Domingo.

Trechos da conversa com Macuacua
Liguei para o felicitar do majestoso espectáculo, mas também, para reclamar do lugar escolhido para o show de inicio do ano.
Macuacua, na sua característica fala mansa, explicou-me primeiro que o espectáculo, era fruto do esforço próprio da banda, e aquela casa, (Rua de Arte) tinha sido, a que se abriu ao espectáculo de Ghorwane.
Explicou-me que o grupo tinha de começar por algum sítio, (valeu a pena naquele espaco, que em nenhum) , para além de que, se pretendia com aquele espectáculo, medir a verdadeira temperatura entre o grupo e público.
Explicou-me ainda que o grupo era contra aos pedidos. Não que não precise de apoio, mas, não deixariam de existir e actuar, só porque os seus espectáculos não eram patrocinados e o ultimo sábado, foi o exemplo.
No fim, era eu a desculpar-me, porque tem coisas que quem está por fora, não pode compreender.
E é difícil compreender que um grupo da dimensão de Ghorwane enfrenta algumas faltas, dificuldades.
Houve superior mestria e perfeição na Rua de Arte sim meus senhores.

Amosse Macamo
P.S. minhas desculpas a Ximbitane, que liguei para ela na madrugada, confiando que estivesse na Rua de Arte…desculpas mana, por te acordar tão tarde ,mas perdeste sabes?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ha Ghorwane amanha na Rua de Arte

Ghorwanwe e bejinha la mina para todas mulheres
Quem me conhece sabe que tenho Ghorwane como banda de coração. Há em Ghorwane qualquer coisa de outra idade e vida que não vivi mas sinto falta; sim, igual ao amor que nunca tive mas sei que me faz falta.
A boa saúde de Ghorwane me interessa, porque faz reviver a tertúlia que foi a banda e os elementos que dela faziam parte, mas que já não estão entre nós: Zeca Alage e Pedro Langa, barbaramente assassinados.
Ghorwane, projecta em cada canto, um pouco de si e muito de nós. É como se essa banda existisse, para cantar-nos. Para narrar nossas vidas sofridas, para “focar toda a gente e todo mundo dentro de si”, para celebrar nossas noites, mitos, nossas vidas.
Dir-se-á no essencial que Ghorwane é reflexo de nós mesmos.
Esta manhã, acordei com a banda na cabeça e decidi criar esta pequena ponte, para que cada um, deixe o seu testemunho, do que seja esta banda para ele, numa altura, em que a mesma celebra 25 anos da sua carreira.
Quero evocar vossas forças, para a causa que é esta banda, para importância de ela estar de boa saúde e nos deliciar com suas músicas de arranjo estético inigualável.
Mas antes, deixem-me chamar a atenção das vasikates da profundidade de um trecho de música desta banda, um trecho que se acompanhasse nossas vidas, acredito que a paz iria reinar na terra dos amantes.

Beijinha la mina beijinha lawena nkata
Shi massi sha mina shi massi sha wena
Mubedi wa mina mubedi wa wena nkata

Ou então em shi nguiza
My kisse’s your kisse’s
My pillow is your pillow
My bed is your bed honey
(se algo estiver errado corrijam-me, é inglês isto)

Ora, se os meus beijos são teus, se a tua almofada também é minha, se a minha cama também é sua; não é esta a ideia?
Não está aqui patente a ideia de comunhão, de tornar dois corpos em um só?
Não está aqui a transformação do eu para o outro e caminho certo para a tolerância e convivência sã?
Não sei o que vos diz Ghorwane, mas a mim me diz muito, não só por causa desta música, mas sim das demais que cantam, porque eles sabem ser nós e em ponto grande.
Então, porque não marcar um encontro amanhã na Rua de Arte, para celebrar a banda. Sim, Ghorwane vai tocar amanhã na Rua de Arte e a tua presença, talvez fosse o melhor testemunho.
A terminar esta minha provocação, deixem-me evocar a parte final da música beijinho:
We lele, we ,lele, até amanhã,
We lele le, lele, ate amanha, dzhe, dzhe, dzhe, no Dzheta phela leswi
, até amanhã…..
Pois...deixe o seu testemunho e até amanhã na Rua de Arte.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cronicas de Alexandre Langa (hoyo-hoyo masseve)

Hoyo-hoyo Masseve
Hoyo-hoyo masseve, hoyo-hoyo masseve
Ashi rwalo shawu canhi shi cala ngopfu masseve
Hinga tsama hi lani nitaku rungulissa

Nitaku rungulissa
Nitaku rungulissa
A xi nhimu xa wena xa navelissa masseve hinga tsama hi lani niatku rungulissa
Ni ta rungulissa
Ni tarunguilissa
Hoyo-hoyo masseve, hoyo.hoyo masseve.
Alexandre Langa

Hoyo-hoyo masseve; Uma nota de boas vindas que insinua o intimismo.

Sempre se dirá que a música é a cortina de vidro e ferro que mostra e oculta ao mesmo tempo.
É surpreendente o que se descobre quando se ouve estas músicas com outro ouvido. Mais surpreendente ainda, é pensarmos que as conhecemos e por isso as cantamos sem contudo as questionar.
A simplicidade com que os músicos e maxime Alexandre Langa, trata as suas canções, faz desconfiar, porque logo à partida, não se pode conceber que o Alexandre tenha feito esta música somente para celebrar a época e canhú.
A verdade é que há muito nesta letra, e sempre escondido, nas entrelinhas.
Hoyo-hoyo masseve, não é mais que uma mensagem de boas vindas, onde um compadre diz a comadre que é bem-vinda. (hoyo-hoyo masseve)
É bem-vinda ainda, quando traz o canhú, que se sabe, bebida de época e por isso, não fácil de encontrar a qualquer altura do ano. (Ashi rwalo shawu canhi shi cala ngopfu masseve.)
Justamente por isso que o Alexandre corre, para ajudar a comadre a tirar o pote de canhú de cabeça, para depois conversarem (Hinga tsama hi lani nitaku rungulissa.)
Até aqui está tudo bem, porque é costume entre nós, que quem traz um presente, e de maior valor como o canhú, depois de o receber seja convidado a sentar-se para o desenrolar do habitual ndzava, onde se conta tudo, desde as ligeiras dores de cabeça do tio, do tio do nosso tio, até ao latido de khombomuni, este cão, que não dorme por causa dos valoyis, da Miseriana que comporta-se mal, do Castiguana que com tenra idade já bebe e tira cigarro das narinas, da dura vida, fala-se de tudo ou quase.
Na verdade, este acto é um ritual que pode ser interrompido para saudar quem passa rapidamente e restabelecido assim que as condições estiverem criadas (até parece TVM né?)
Facto é que depois da ndzava, Alexandre e comadre, começam a beber canhú e não nos esqueçamos que o canhú, é um verdadeiro afrodisíaco, e que depois de ingerido umas certas quantidades provoca reacções e é aqui que a música muda de rumo.
Pois, a certa altura, o Alexandre diz para a comadre (A xi nhimu xa wena xa navelissa masseve hinga tsama hi lani nitaku rungulissa), ou melhor; seu estilo (entenda-se também seu porte, sua maneira de ser, suas formas, curvas) é tão perfeito e/ou mete cobiça, sente-se aqui para a ndzava (saudação) comadre.
Ora, se já houve a ndzava logo que a comadre chegou e com direito aqueles rodeios que nos são habituais, o que faria Alexandre querer repetir?
Há aqui matéria para muita reflexão. A mim, me parece que esta ndzava é bem outra, é que, depois de uns copos a comadre, ganhou novas formas, aliás, as impensáveis de dizer em dia normal, mas que com um copo Alexandre disse e até olhou para dizer “axi nhimu xawena”, ou melhor, as suas formas, a sua pose comadre é de fazer inveja e/ou cobiça.
Reparem, tudo é feito na medida e dose certas, pois, mesmo convidando a comadre para a outra ndzava, Alexandre, teve o cuidado de manter o respeito, porque se a comadre não quisesse alinhar e levantasse alguma problema, era fácil escapulir, justamente porque não faz mal elogiar a pose de uma comadre.
E porque não houve problemas, não tardaria que os dois fingissem ir a casa de banho e resolverem os problemas de canhu, para falarem depois e bem baixo, nos ouvidos de ambos, “sula nomo” ou melhor, “limpe a boca”, em clara referência a que nada aqui aconteceu.
E lógico, o próximo encontro ficaria marcado dali, a mais um ano, na próxima época de canhú, porque “Ashi rwalo shawu canhi shi cala ngopfu masseve”, a prenda de ucanhu é tão rara comadre.
Verdade, o canhu, é esta bebida que autoriza algumas práticas que são impensáveis nos mais velhos, é esse mal que nos pertence e mostra a nossa vulnerabilidade como humanos, nos desnuda, justamente por isso mesmo, que não se pode servir as crianças e que a abertura da festa do mesmo, dá se na casa do mukhulo, do régulo, do induna, para que logo o problema rebente, seja logo atacado e abafado, é o mesmo esquema dos madlaya nhocas (mamani nixi cumile mina hiwo nengue lowu), de Alexandre, mas essa, já é matéria de outra crónica.
Por enquanto, fiquem com este gostinho de canhu, feito na época e por favor, bebam com os vossos homens, para que não cantem hoyo-hoyo masseve.

E não era poeta o Alexandre ao conseguir emitir um convite para o acto sexual com uma mensagem tão simplista como hoyo-hoyo masseve?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Cronicas de Alexandre Langa

Outro dia liguei para a minha amiga Ximbitane; engraçado, falamos regularmente ao telefone e nunca estivemos num frente-a-frente.
Vão me questionar o que uma coisa tem a ver com a outra e digo, tem a ver sim, lá vai você ter uma amiga e nunca a apertou a mão? (experimente dizer isso a Policia de Moçambique!)
Dizia que liguei para a ximbitane, e o pretexto eram as crónicas de Amélia Mdungaze.
É que, a semelhança do que a Ximbitane faz com as crónicas da Amelia, (enumeradas e seguindo uma certa sequência), pretendo também, criar crónicas de alguns músicos, que dado, a vastidão da sua obra, impossível tratá-los numa só matéria.
Alexandre Langa, por exemplo, tem acima de 100 músicas, de temática diversificada, desde os bares (senta-baixo), onde infelizmente andou na companhia de Kid Malume, dos feitos da revolução, do social e mais.
Do Xidiminguana, que canta as histórias deste pais, do Joaquim Macuacua, poeta da adversidade, do Dilon, Fany. ..
Bom, devo dizer que a Ximbitane concordou, razão pela qual, vos anuncio meus bons amigos do Modas que brevemente, vou começar com as crónicas do Alexandre Langa, este músico que o descubro todos os dias, um poeta social com todas as letras, um colaborador da revolução, um músico com características estéticas de fazer inveja.
Pena que o tempo o levou precocemente como levou, o Joaquim Macuacua, Alfredo Mulhui, Fany Mpfumo, Eugénio Mucavele, Pedro Langa, Zeca Alage, e outros.
Proponho-me a vasculhar a aldeia de pensamentos do homem de Ndaveni, que aquando da sua morte e para mau grado, ficou conhecido como o homem que cantou mabunganine, como se essa música fosse representativa, das músicas e da grandiosidade da sua obra.
Não que mabunganine não tenha a beleza que caracteriza as músicas deste, mas não foi justo, e até por parte de alguns conhecedores da sua obra, que assim o tratassem.
Vamos nestas crónicas, lembrar as suas músicas mais expressivas, comentando-as, criticando-as, descobrindo as suas metáforas, parábolas, no sempre tempero do Modaskavalu. ´
Se conto convosco? Claro, sempre com a vossa mão amiga, pessoas que não vou fazer menção agora porque inoportuna, mas que em ocasião certa vou grafar seus nomes aqui (lembrar que o modaskavalu faz um anito em Março), para que fiquem perpetuados nesta modesta pagina, da minha (se o quiserem vossa) vida.
Conto sempre convosco, para a celebração do pensamento dos fazedores da nossa boa música, e vamos juntos projectar o presente para a saudade do que foi feito de bom, esperando, que o amanhã reconheça a obra.
Hambi va pangui vati ndleve taku leha vata tchina nyamuntla a
Modaskavalu, marrabenta, senta Baixo (Mahecuane
-dono da música que leva a chapa do blog)
Obrigado Ximbitane, por me deixares roubar a sua ideia a luz de dia.
Amosse Macamo

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Mawaku a todos voces

Mawaku
Loku ni hoshile nkata
Ni dzivalele hikussa
Namine swengue nihoshekela nkata
Massiku yaku tala
Ninga hanha na wene
Swa ni kazatela ngopfu
Kussala upswanga

Nili mawaku/mawaku
Lava ngani umbilu/mawaku
Nili mawaku/la vazandziwaka
Nili mawakoooo lava tchataka-Joao wate

Tudo na vida é fruto do Amor.
Quem o tirar e olhar em seu redor
Encontra só tristeza e nada mais. – Rui de Noronha

O eterno amor; o eterno drama vivido e cantado por todos, o supersticioso, o devoto, o picante, o fiel, infiel, ingénuo, doce, puro, sujo, imundo, genica, gana vital, companheiro, solitário, doce com requintes de amargo, rio, fogo, água, que se antecipa, esquivo, fugidio, inocente, emaranhado, o amor é, não é.
Neste mês dos amantes o procurei incessantemente e sempre, na lógica do Modaskavalu e usando as lentes dos bons fazedores da música de casa.
Tive problemas, para seleccionar uma canção de consenso, porque, temos exímios fazedores de música de género, desde Feola, Gabriel Chihau, Lalarita, Avelino Mondlane, José Mucavele, Roberto Chitsondzo, Mingas, Fany, Hortencio Langa… mas bom, tinha de escolher um.
João Wate pensei comigo; e a música, foi o Mawaku.
Se é verdade, que o eu lírico dos marongas (muzongas), é o amor, João Wate, com esta música o confirmou e de forma sublime.
Nesta música, João traz uma mensagem do consciente e do inconsciente, fala de um voo com um único rumo: ao amor.
Há aqui, uma espécie de auto superação, de concretização de todo um discurso de amor, mais ainda, de uma humildade, que só se justifica nos marongas, porque, o bendasporo de Gaza, lá na terra onde as árvores, produzem dinheiro e são do mesmo tamanho, lá onde se cai e se levanta num instante, a palavra perdão não existe.
Qualifico aqui, o consciente e inconsciente, porque neste discurso, há uma intenção clara, que é de pedir desculpas, contudo, há outra que diz e denuncia o amor puro de um homem para com uma mulher onde em maiúsculas diz: te amo, por isso não vá, ou melhor não saberia viver sem ti (swa ni kazatela ngopfu kussala uswanga.)
De facto, neste não querer e/ou não conseguir ficar sozinho, há um milagre real, de um homem que abre seu peito para a mulher que a vida nunca o dera tempo para perceber que amava. E a partida, não podia ser o melhor despertar.
“Se eu errei amor me perdoe, porque (errei), não quis que assim fosse, foram muitos anos de vida conjunta que não conseguiria viver sem ti”( loku ni hoshile nkata/ni dzivaleli/hi kussa, namine swengue ni hoshekela nkata/massiku yaku tala/ninga hanha nawene/swani kazatela ngopfu kussala upwsanga.)
Este pedido de perdão, desperta uma espécie de cobiça, onde, João, chama o outro, e o relaciona com a sua situação, insinuando que “felizes dos que perdoam ou tem compaixão (mawaku lavangani umbilu), e outra; felizes os que são amados (mawaku la va zandziwaka).
Na primeira situação “mawaku lavangani umbilu”, João, exorta a mulher a abrir o seu coração ao perdão, porque como já bem o diz”sei que errei mulher”, de que adianta, senão, pelo desejo de sofrer, deixar-me se me podes perdoar.
Destaca ele, os longos anos de vida conjunta, a compartilha, a tolerância, que não pode ir abaixo por um mal entendido.
Na segunda situação, num golpe quase que baixo, e numa tentativa de fazer uma espécie de chantagem psicológica com a mulher, faz como que, cobiçando, os que são amados; como se ele não fosse.
Na verdade, este mawaku, levanta um problema de todos os namorados, porque muitas vezes, olham para a felicidade dos outros como milagre, e nunca em ocasião alguma se auto-questionam porquê o outro é feliz; se admiram, quando o outro casa e não se questionam quantos caminhos sinuosos o outro teve que percorrer até chegar lá, admiram a longevidade do casamento alheio, como se o outro tivesse uma varinha mágica, sem perceberem que a capacidade de perdoar, a tolerância, o companheirismo fazem brotar esta semente que é o amor, porque, como diz o poeta das boas essências e perfumes no cantar, “ a lirhandzo li fana ni nhungue vongo bwala lo missaveni, li mila, li hlovuka…”, pois, o amor é esta semente que se cimenta na capacidade de perceber o outro.
O que João percebeu, e precipitado pela partida, é que, aquela era o amor da sua vida. Percebeu, tal como o poeta dos sonetos, que “tudo na vida é fruto de amor e que quem o tirar e olhar no seu redor encontra só tristeza e nada mais”.
Procurei esta música, para dedicar a todos os amantes, um feliz dia dos namorados, e que esta, seja de reflexão, para a forma como nos relacionamos, como sabemos e somos capazes de perdoar, para o companheirismo, para um esforço conjunto de construção de um verdadeiro lar, para uma família que se quer célula base da sociedade, para que não olhemos e digamos mawaku, como se os outros, tivessem uma fórmula para amar e perdoar.
Costumo dizer a minha mulher que um bom amor perdoa, claro, fazendo referência de ela para mim.
Neste mês, neste ano, todos os dias, amem-se com todo o amor que tem para amar, para que sejam os outros, a dizerem mawaku de vocês.
P.S. Há muito que explorar nesta música, muito mesmo, eu, oportunista que sou, pensei na data que se aproxima….
Hoje, vou fazer a cobertura do espectaculo do Roberto Isaias no Gil e segunda feira, aqui, neste canto, esta marcado o encontro

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

ALEXANDRE LANGA e Jossefa Mukhombo

Jossefa Mukhombo
Utsama u dhakwile
Nigweli lomu uyi kumaka kona male
Ama meticale makumiwa hi vatirhi
Nigweli lomu uyi kumaka kona wena-Alexandre Langa


Se enumerasse a classe dos “faz de contas”, teríamos uma lista interminável, isto porque hoje, ninguém está mais disposto a ser.
Todos queremos parecer e neste exercício, é muito difícil distinguir quem é quem.
E valerá a pena a distinção?
Bom não sei; verdade, é que se vive outros tempos. Tempos que quando tentamos compreender os factos e achamos que já os compreendemos, o que era, ou parecia ser, já mudou e como.
Sob comando de uma falsa ideia de liberdade tendemos a conduzir nossas vidas de uma forma corrida, sem respeitar o próximo, valorizamos o imediato, o consumismo, o material, o gosto pelo enriquecimento fácil, muitas vezes sustentados pelo ilícito.
Bom, esta, está já a parecer uma lição de moral quando a questão pode ser colocada no sentido de questionar a que distancia estou do homem que descrevo?
Isto para dizer que não estou aqui, para julgar seja quem for, só que, questionar, nunca fez mal, aliás, aprende-se muito com este exercício.
Proponho-me assim, a apreender com a música de Alexandre Langa, que faz um questionamento que não foge muito do que aqui se escreve:
“Jossefa mukhombo, se estás sempre bêbado, diz-me onde arranjas o dinheiro, porque sabido que este provém do trabalho”.
Bom, a primeira vista, a mensagem resolve-se, porque, o que o Alexandre indaga é pacífico: saber onde Jossefa arranja o dinheiro para beber se, não trabalha.
Mas, se olharmos atentamente, descobrimos que estas palavras vão além do que ali foi dito, isto porque, estar sempre bêbado, é colocado num ponto que caracteriza todas as formas de estar, que contrariam o sensu comum, por ex. estar bem vestido, comer em restaurantes caros, viver em casas arrendadas, a prodigalidade habitual etc, quando se sabe, que o visado, não trabalha
Numa sociedade como a nossa em que o “faz de contas” é que vale, os que vivem desta forma, são os que sobressaem.
São capas de revistas que surgem não se sabe para que efeito ou linha editorial seguem, são constantemente chamados para entrevistas que não se sabe bem que efeito se pretendem produzir no destinatário (dai que alguns aproveitam para exibir os fatos italianos), passam a vida de bicos nos pés, para serem sempre vistos. (eu gosto de ser visto eich? De ser visto!)
Mas a maioria destes até que desenvolvem algum trabalho: não é fácil ser medíocre, isto é; dá trabalho, mexer em computador para apanhar o beat certo e produzir “gosto de ser visto, ou "Kahtla" de Mutisse.
E fazer estas musiquetas não é trabalho? Que vá passear quem pensa diferente, aliás, quem pensa assim, não passa de um “invejoso reguila”.
O Alexandre Langa, questiona sim, os tipos que ele sabe que nada fazem, mas tem sempre dinheiro. Que não se lhe conhece algum ofício lícito, mas andam em brutos carros, que de dia dormem e a noite acordam sem irem a um trabalho verdadeiramente de turnos, aos tipos que desprezam nosso esforço de trabalhadores modestos, porque nos acham honestos demais…
E diz-me; onde tu arranjas dinheiro para tudo isso, se não trabalhas?
Há-de convir, que o ilícito criminal acompanha estes homens. Que o alheio, faz parte de suas vidas, que o gosto pela vida fácil sem esforço, aliado ao enriquecimento sem causa, fazem deles, os homens de momento.
Pena que as minhas irmãs se deixam enganar por estes tipos, pena que lhes interessa assim como estes ver o imediato, pena que estes, ao lado de quem busca o conhecimento sempre sobressaem, pena mesmo, que até a minha mulher desvalorize o esforço dorido de manter um lar, por um destes pelintras.
Mas diga-me então ó Jossefa Mukhombo, onde arranjas dinheiro, se não trabalhas?
E vou lá atrever-me a perguntar onde arranja dinheiro um individuo que não trabalha, quando se sabe que é amigo de um Polícia dos bons?
Jossefa Mukhombo é este hino, que não procura respostas, senão, questionar. É esta música, cantada por um homem a quem apelido de sociólogo musical, sim, Alexandre, com as suas músicas já cantou este pais, o seu pulsar, suas conquistas, derrotas, sem contudo, perder a estrutura estética, que orientava as suas músicas, porque em qualquer coisa que cantava, não faltava nunca o esmero, o toque de beleza, o arranjo fino, o amor, a vida, a dor, angustias, anseios, tudo cantado em maiúsculas.
Maiúscula que pretendo grafar aqui no Modaskavalu, em palavras… modestas palavras.
Amosse Macamo
P.S. a presente, faz parte de um exercício que se pretende mensal, de tentar descortinar no máximo as músicas do Alexandre, isto, porque impossível, em duas ou três matérias, trazer a temática deste homem.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Marrabenta sim!

Uma noite sublime
Digamo-lo directamente, a marrabenta é um estilo musical com uma estética, ritmo e poesia de fazer inveja.
Não fosse nosso país de faltas, agudizada por uma agenda cultural inexistente, a marrabenta, como estilo musical, merecia uma melhor inserção num espaço que não se circunscreva somente ao país.
O nível de execução que pude testemunhar na última sexta feira no CCFM, para além de sublime, trouxe-me algumas inquietações lógicas:
É que, todos os bons executores da marrabenta, estão velhos, na verdade, teimo que no próximo festival, alguns deles já não estejam entre nós. Só para terem uma ideia, dos que actuaram no CCFM, na última sexta feira, todos, têm uma média de idade de 60 anos, e o mais velho, dos presentes tem 89 anos, o Moisés da Orquestra Djambo.
Caberá então perguntar: que futuro se reserva para a marrabenta? (O Xidiminguana, já fez um excelente trabalho com o filho, caso para dizer que há alguma luz…)
Bom, não foi para responder a estas e outras inquietações que resolvei escrever. Na verdade, estes escritos, são para partilhar com aos amigos do Blog, as emoções vividas na sexta-feira no Franco.
Já estive em grandes festivais nacionais e internacionais, lembro-me com alguma nostalgia, dos festivais de Baluarte, na Ilha de Moçambique, que fazia desfilar músicos moçambicanos e internacionais com uma vertente tradicional e maravilho-me; Já lá vi coisas muito boas, mas estou certo, que a emoção que tive, não chegará de perto, ao que pude testemunhar na última sexta feira.
Numa noite em que o Alberto Mutxeca foi o elo mais fraco, nem com isso, conseguiu apagar aquilo que seria, a síntese do festival: o sublime, sim sublime.
No meu caderno de registo, tenho os detalhes do espectáculo todo, contudo, por uma questão de economia do espaço, e para não ser enfadonho na apreciação, tentarei sumariar o que foi o espectáculo.
Início
Quando entrei na sala do Franco, eram por ai 21 horas, portanto, trinta minutos depois da hora marcada para o inicio, (razoável se tivermos em conta, que os trinta minutos, foram bem geridos, com a apresentação no ecrã gigante dos testemunhos de artistas e algumas figuras de vulto do cenário artístico), e o mestre-de-cerimónias, que na altura não pude identificar, acabava de anunciar que o festival, estava a começar, na mesma altura, apagaram-se as luzes da sala, permanecendo acesas a do palco, foi ai que vi a entrar o Manjacaziano, Alberto Mhula.

Alberto Mhula e Manjacazianos
O espectáculo, não poderia ter começado de melhor forma, foi mesmo feliz a escolha de Alberto Mhula, para abrir o espectáculo, porque este, mostrou que a idade produz um efeito contrário na sua arte: quanto mais a idade avança, Mhula canta e executa melhor ainda.
Este, apareceu sentado no centro do Palco, com três tambores (Ngomas) bem alinhados, acompanhado, por três bailarinas e começou cantando, Uta Tsendzeleka ni matiku ulava mina, música linda e doce de ouvir, aliás, marca das músicas de Mhula.
Para quem questionou o papel das três Ngomas alinhadas no centro do palco, com a quarta e última música, percebeu, a importância daqueles. É que, no meio da música, Mhula largou a guitarra e fez o tambor rufar e confesso, fiquei sem saber se estava ali um Nyamussoro (Sanghoma), exorcizando os espíritos, ou continuava o Mhula a cantar; e ouvia-se no refrão, He Mhuloo wena wa xanisseka upfumala ni nwinhi mussaveni, e o Franco já estava de pé.
Um dos momentos mais emocionantes, foi quando uma das bailarinas, arrancou a guitarra do Mhula e convidou-o a um passo de dança e este não se fez de rogado, porque se os seus pés não podem mais dançar com o fervor da juventude, as mãos, o podem muito bem substituir e foi, que se viu; gesticulou com as mãos, mas, mesmo com o peso da idade, deu para mexer a bacia, lugar, onde a marrabenta converge.
As 21 e 30 terminou a sua actuação e o mestre-de-cerimónias que desta vez, pude identificar (David Macuácua dos Ghorwanes), que se diga fez um trabalho excelente, ora segurando os espaços de pausa para a afinação das guitarras, ora dando dicas da idade dos executantes. E foi na esteira, destas dicas, que deixou no ar que o próximo a entrar no palco, era um “jovem” de 89 anos, para minutos depois, entrar o Moisés, da Orquestra Djambo.

Orquestra Djambo 70
O Macuácua, teria na ocasião instado o Moisés, a dirigir-se a plateia, para algumas palavras; este, aproximou-se do micro e disse que não tinha nada a dizer, apenas mostrar o seu trabalho: e mostrou, porque a partir da actuação do Djambo, o Franco, pôs-se de pé, num passo de dança, que só cessou com a entrada de Mutxeca.
Elisa mambale foi o tema de abertura, mas o momento, mais alto, foi quando o elemento feminino da Orquestra, cantou os clássicos Elisa Gomara saia, e Laurinda awuni khomele vananga mine, e o público, não coube em si, de tanta emoção. A propósito desta actuação, eu e dois amigos ali presentes, comentamos que aquela sim, era uma verdadeira diva de marrabenta e não as pseudos que andam por aí e que nem vale o esforço de citá-las, para não mancharem o momento.
Este grupo foi acompanhado, por quatro pares de bailarinos e quatro coristas, e não são uma orquestra?
As 22 e 07, entrava o Antoninho, este maengane, que me chamou atenção, pelo rigor do seu vinco, só lembrar as mulheres, que no tempo de Antoninho, eram mandadas embora para casa dos pais, se não soubessem fazer um vinco a rigor.

António Marcos e banda Real
Começou cantando Ntsantsantsa wa mangava, e dava recados claros “vá dizê-los que o Ntsantsansta esteve aqui” e não é que esteve mesmo?
A segunda música, kuta vuya mane kaya murhandziwa, acelerou o compasso de dança arrefecido depois com uyo pfumela, este reggae a moçambicano que temperou mui bem as escolhas temáticas de Antoninho, e para terminar, a sua actuação, e roubando pouco do tempo que era reservado a Mutxeca, cantou Maengane, para o delírio da sala.

Alberto Mutxeca
Um dos executores de marrabenta que estava ansioso para vê-lo era o Mutxeca, mas este, foi totalmente infeliz na escolha do reportório e pela actuação do viola baixo, que não entrava, e nem a sua mulher (corista), o ajudou, porque para além da voz trémula, ela, não foi o brasão que Mutxeca precisou, para apagar a má impressão da primeira música.
É que, Mutxeca, foi pegar a canção Vacolonhi (para iniciar a sua presentação), de ritmo lento, e a partir dai, estava minada a sua actuação, algo embaraçado, com o seu viola baixo, que não conseguia afinar a sua guitarra, o que fez entrar no palco o Ximanganine, para a afinação devida.
O segundo tema, Nwa xibeulana, tentou resgatar o espírito da noite, mas a moral de Mutxeca, já estava abalado, o que piorou, com a mulher, a pressioná-lo, para que tirasse do palco o bailarino alegórico (trazido por eles), que entrara para dançar somente a música Nwa xibeulana, mas que com a receptividade do público, embalou-se e não queria sair mais. O que a mulher de Mutxeca, não precebeu, é que aquele bailarino, em algum momento, salvou a actuação algo infeliz deles.
As 23 e 06, retomava-se o espírito da noite com a entrada no Palco de Xidiminguana e seu conjunto de sempre, Vutho Gaza.

Xidiminguana
Uma vez, quando questionado, o porquê de não mudar seu nome para Domingos,visto que já era crescido, respondeu que a árvore que servia de referência ao Bairro Ximphamanine (baobá=Mphama em Changane), já crescera, mas nem por isso, mudou-se o nome da zona de Ximphamanine, para Mphama.
Com esta resposta, Xidiminguana, negava-se a ser elevado. A sua modéstia, não o deixava ver o Domingos, mas sempre o Xidimingana. E foi este que se apresentou na última sexta feira, com um reportório de fazer inveja, acompanhado de duas bailarinas com dotes de dança invejáveis. Cantou temas como Ni huma ka vuthu, Xicona (que pôs todo mundo de pé), nkatanga, um dos melhores temas de Xidiminguana….êxtase. falar mais? Não.

Os Galtones
O Guitarrista dos Galtones ia avisando a todos: vocês hoje vão dançar. E não é que o tipo tinha razão, uma das melhores actuações da noite, sem sombra de dúvidas. O grupo, mostrou que é rodado e que ensaia e toca constantemente, o ponto mais alto da sua actuação, foi com a música, modas khoma /hnloko, katla, vele… loucura total.
Momento impar, foi quando os dois guitarristas largaram as guitarras e envolveram-se nuns passos de dança, que extasiaram a todos, mais alto ainda, foi ver o Ximanganine a segurar o ritmo (com a ausência dos dois guitaristas), com o seu bandolim, meu Deus!
Aquando da entrada deste grupo, o mestre-de-cerimonias tinha já anunciado, que o mesmo iria acompanhar o guru de marrabenta, Dillon Ndjidji.

Dilon
Dilon, só precisou de fazer uma pequena mexida nos Galtones; mudar o viola solo, pondo no seu lugar, o Bernardo Domingos (filho de Xidiminguana), a tocar. Estava garantido o fecho da noite em apoteose.
Dilon mostrou genica, mostrou juventude, mostrou garra, mostrou saber, mostrou-se líder em palco, mostrou autoridade em cada gesto, algo raro em alguém com 82 anos, juro, que tenho amigos de 30 anos, castigados pelo álcool, que não fariam metade do que Dilon faz, juro.
A música Podina, foi uma oportunidade, para o Dilon, exortar a todos, para dançar a marrabenta nacional, de Moçambique, e não se preocupe amigo leitor em querer corrigir Dilon, porque ele pretendia evocar as últimas forças de quem estava na sala e se preocupava com marrabenta. O que quis dizer, é que não deixem a marrabenta morrer e mais internacionalizemo-la.
A grande prova, que Dilon deu de que a marrabenta é sempre actual, foi quando tocou uma música que valeu pelo espectáculo de guitarradas, onde todo mundo vibrou com a mesma, para depois dizer que aquela, era de 1950!
Esteve o Dilon, bem acompanhado, por duas lindas jovens bailarinas, que a dado momento, harmonizavam os passos de dança com ele.
O Bernardo, filho de Domingos, na última música, acreditem, fez amor com a sua guitarra, ali, em pleno palco, aos olhos de todos… exímio guitarrista, o Macuácua, que estava ali ao lado, saltou para o saudar.

Caia, uma noite inesquecível, queria que minha filha tivesse idade suficiente, para ter assistido e compreendido, o que se passou naquela noite.

Organizaçao
Não tenho reparos para a organização, senão, o facto de terem também a semelhança do público, posto braceletes nas mãos dos artistas, que eram os verdadeiros protagonistas daquela noite; não fazia sentido.
Bem-haja o Logaritimo produções, e para as próximas vezes, que o festival comece mais cedo, para que não se prolongue pela noite dentro prejudicando o espectáculo e agastando em parte, os seus executores.

A marrabenta está de boa saúde sim e recomenda-se.
e outro:
Enquanto o Dilon falava, cantava dentro de mim a música, Marracuene va dzila/va dzilela Dilon,/Dilone wa famba, mitati vonela (Marracuene chora por Dilon, Dilon já vai e que será de vocês…..
Que os anos guardem estes embondeiros, e se eles forem que vão na certeza de terem passado o testemunho, enquanto isso, que vivam mais anos, muitos mais anos, porque eu já espero o próximo festival.
P.S. desculpem-me, não pude resumir mais que isto, não podia.
Amosse Macamo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ximbitane, festival de marrabenta, modaskavalu

Psiu! Ei, tu ai! Ya, tu mesmo! wene pah! Guarda a preguiça e faz uma postagem sobre o festival da marrabenta. wadevô! B’dia-Ximibitane

Esta mensagem entrou as 06:55:56 no meu telefone hoje. Não tivesse eu a profissão que tenho, borrava-me de medo, a pensar que um dos meus secou o nariz a dormir. Encarei e fui ao “inbox” qual não foi a surpresa, dei-me de caras com esta mensagem que longe de ser um pedido, era uma ordem, um chamamento, na verdade, uma exortação para fazer algo acerca daquilo que digo acreditar: a Marrabenta, modaskavalu, senta baixo axi tlakula guinhá….
A Ximbitane estava a convocar as minhas forças para uma causa que ela sabe que não sou alheio; a marrabenta e pasmava-se com meu silêncio no sentido de “Amosse, se nos incomodas todos dias, com tuas postagens sobre a marrabenta, inquieta-nos o teu silêncio quando sabes que se vai realizar um festival de marrabenta e simplesmente te remetes ao silêncio!!!”
Tens razão mana Ximbitane, impunha-se que dissesse algo neste momento, nem que fosse para reclamar do preço (250 Meticais) e do lugar (Centro Franco-Moçambicano), onde se vai realizar o espectáculo: elitizaçao do que é popular? Nada, que o povo siga depois a carruagem de marrabenta até Guaza Muthine que lá é mahala.
Pude ver na publicidade que é passada na mídia, que vão desfilar entre outros; o velho Dillon, Djambo 70, Manjacazianos de Alberto Mhula, António Marcos, Tio Wazi, Galltones de Ximanganine (há santo bandolim)….e questionei-me, se será necessário, um festival, para ver estes verdadeiros embondeiros da nossa terra? Haverá desespero neste gesto dos realizadores em fazer um festival do que é nosso?
E alguém vai questionar: Amosse, então, trazemos o festival, reunimos as velhas glórias num só concerto e pões-te a reclamar?
Nada vandunwina, não reclamo não, tenho meus motivos, de fundo até, mas que se diga; não há nenhum gesto de desespero por parte dos realizadores, estão até de parabéns, pena que só promovem os festivais, e não os espectáculos regulares, porque estes sim, seriam uma forma de ensaio, e motivo para aqueles produzirem mais canções que povoam o nosso imaginário: temo que os festivais, se tornem, um acto de saudosismo, onde vamos deitar lágrimas e exaltar um passado que alguns de nós, nunca vivemos.
Este festival, ganha sim, por agrupar realidades com características semelhantes, a luminosidade dos anos e homens de grande criação artística, pena que este momento, não seja encarado pelos jovens com alguma seriedade, porque seria, o de passagem de testemunha por excelência.
Lembrar que a maioria das músicas destes Embondeiros que povoam o nosso imaginário, foram gravadas em duas pistas somente, e não tinham todo o aparato tecnológico que os jovens tem, mas mesmo assim, superam em qualidade e como!
Este festival, deveria também conter uma parte, em que jovens comprometidos com a nossa música, pudessem lembrar, alguns ícones de marrabenta que já não estão entre nós, Tony Django, por exemplo, é exímio a buscar Zeburane e outros. Seria uma forma de ressuscitar, grandes intérpretes da nossa marrabenta, porque não faria sentido que no festival não se tocasse, por exemplo, um hino como o Modaskavalu, interpretado por Fany e Mahecuane, aliás, se existisse a trindade na música, dois lugares, seriam ocupados por Fany e Mahecuane e o terceiro por Dilon, Xidiminguana, Alexandre Langa….?
Mas Ximbitane, porque já falei muito, queria lhe dizer que, esperava falar do festival, depois de assistir, porque estarei lá, lúcido e registando cada momento, para os comentários devidos no teu, meu, nosso modaskavalu, contudo, agradeço e como, pelo toque, bem hajas, minha mana….
Então, até logo no franco?
P.S. perdoem, como tem sempre perdoado meus erros, o presente, foi escrito em vinte minutos, e para responder a "provocação da mana"...e dizer que hoje utapswa mutchine wama nailoni (hoje vai mesmo animar)
Amosse Macamo

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Costa Neto e Mandjolo

(refrão)
Mandjòlô
Nd'yà ka Mandjòlô
Kè m'baku
Nd'yà ka Mandjòlô

Hantlissa mu pfana
U ta ndy kuma ndlêlêny!

Lôku ndy sukaka padêni, minè
N'kwãkwãnana
Y n'gwavela kwapa ndlela
Ndy mu zinguiry, minè

Kòdwa u suka Ximbanguini, muzay
N'kwãkwãnana
Y n'gwavela kwapa ndlela
U mu ndyndyndy wénè

Ka Zantaca va longolokylè
Ka Zithundu va longa psy djumba
Ku ta buya ny va ka Khatwany
Ndy lêlêtêlêny kôlê ka Tembe

A xiguila xy kwyni
Ndy ta kina xigubu
Ka mu khulu
N'davèzitha

Na ndy tsimbi bèdjwa, kwa ndê!
Ndy tlhanguela T'rapezulu

Ndy nhiketêny n'duku
N'dy ta vika ma tsôtsy
N'dlelêny, ka Madjuva.- Costa Neto

Há ou não saudosismo no Mandjolo?
A música tem o dom de despertar sentimentos, dos melhores até piores. Na abordagem ao Mandjolo, não faço, senão, deixar-me levar por estes sentimentos, pela multiplicidade de espaços que o Mandjolo desperta em mim enquanto que canção, e sem fugir claro, a algumas referência a letra da música que me foi gentilmente cedida, pelo próprio Costa Neto.
Para mim, a manifestação mais patente em Mandjolo é, precisamente de rebusque/resgate de imagens de infância, adolescência e espaço que viu nascer Costa Neto.
Há ali, uma espécie de cabra-cega de fixações de espaço, onde se confunde o artista e o homem, divididos entre dois oceanos; uma fixação da saudade pessoal e da terra que o viu nascer.
O enredo psicológico que o Costa traça, obriga-o a segurar o tempo e traz vivências de saudades daquele espaço concreto: Mandjolo, mas também de uma terra que é Moçambique e Maputo particularmente (desde Zitundo, Khatwany a Ka Tembe.)
O refrão, Mandjòlô, Nd'yàkaMandjòlô, Kèm'baku, Nd'yà ka Mandjòlô, (Mandjolo, vou a Mandjolo, irmão, vou a Mandjolo), mostra claramente, a sua ânsia em indicar a direcção da terra onde quer ir, para que rapidamente, o indiquem o caminho.
Nesta sua volta a casa, Costa, deliberadamente cria duas personagens: o do mu fana (rapaz) que tem de o acompanhar e outra, de um autóctone que o dá as coordenadas de como chegar e bem a Mandjolo (Kódwa u suka Ximbanguini, muzay, N’kwãkwãnana Y n'gwavela kwapa ndlela/ U mu ndyndyndy wénè) assim que saíres de Ximbanguini sobrinho é só seguires o caminho (siga em frente), para logo concluir que “você é um ndyndyndy.”
Esta passagem é fundamental para perceber o apego a terra por Costa, pois, logo que chega perto do autóctone e lhe pergunta por Mandjolo, o auctótone, pelas suas falas, apercebe-se logo, que aquele era um ndyndyndy.
Ora, o longo período de tempo que Costa vive na diáspora, o faria certamente perder a sua identidade com a terra que o viu nascer e consequentemente o traquejo da linguagem, mas não, logo que se pronuncia, há um reconhecimento conclusivo de quem ele é; “U mu ndyndyndy wéné”.
Concluiríamos daqui mesmo, que o Costa, nunca se desligou da sua terra, e mais, onde ele vive, vive a ânsia constante de poder pisar a sua terra e isto percebe-se no diálogo que tem com o mu fana, encarregue de o ajudar a chegar a casa, quando diz para aquele: Hantlissa mu pfana, U ta ndy kuma ndlêlêny! ( se apresse rapaz que me encontras pelo caminho.)
Neste pedir para que o rapaz (mu fana) se apresse, chega a sugerir que o mesmo corra para rápido chegarem. É a ânsia, o desejo de rever a terra e logo, rever-se. É ele, a voltar ao mesmo tempo e parecendo que não, revê-se no miúdo que o acompanha e compreende naquela caminhada que não pode mais esperar, porque deu toda a sua alma, lágrimas, sobretudo alegria e força ao seu país: Moçambique.
Neste não querer adiar a viagem a Mandjolo, chega a sugerir que o entreguem o bastão para se defender dos bandidos a caminho de Madjuva (Ndy nhiketêny n’duku N’dy ta vika ma tsôtsy N'dlelêny, ka Madjuva), ficando assim claro, que na sua ânsia de querer chegar a terra, até predispõe-se a afastar os perigos pelos seus próprios meios.
Com Mandjolo, Costa nega-se a reconstruir a sua vida ouvida por terceiros; nesta caminhada, propõe-se ele próprio e por seus próprios olhos ir em busca do espaço e das pessoas que o viram nascer e crescer, mesmo que corra o perigo de se encontrar com os bandidos e com todas as consequências que dai podem advir.
Há aqui, uma ideia de identificação de pessoas e lugares e através desta, recuar no tempo e buscar o que é bom, o Xigubo por exemplo, que era dançado na casa do Régulo/chefe /autoridade local o N’davezitha, referenciado na música. (ao ouvir a música, nesta parte, ouve-se o ritmo de Xigubo.)
Costa esculpe no Xigubo, a dança que simboliza as demais da sua infância e juventude, e Mandjolo, como espaço onde se realizou o homem que fez o artista que ele é.
De facto, Mandjolo é pura projecção de si-próprio, da identidade psicológica, da auto-afirmaçao que o faz justamente voltar a terra, para se encontrar consigo mesmo, dai que não se estranhe, que o Costa, seja tido por muitos, como o representante fiel da cultura moçambicana na diáspora, porque lá onde está, apenas vive o físico, porque o psicológico, está neste momento em Mandjolo, ou duvidam?
Há sim saudosismo em Mandjolo, há o fulgor de volta aos espaços, há um sentimento dominante de auto-identificaçao, bem conseguidos pelo alcance estético da música.
E algo engraçado, sempre que escuto esta música, não sei porque magia, volto, as ruelas do meu bairro Polana Caniço, as velhas historias conseguidas por muito sacrifícios de quem as contava, ao inventar e refazer de histórias de vida, o arco-iris das aventuras de outiva de Bud Spencer e Trinita, das ideias envolventes de fugidas para a pista da ATCM e praia de Costa de Sol, das trepadas as árvores de amoras, no Clube (?) de Golfe da Polana (Caniço), do Castiguana maguidjana duro que empurrava a bola de chingufu a ameaçar todos que se faziam a sua frente, do M’bidji bidji, mandyndynde terrível a fisga, enfim, da minha malta da infância, sim, nós também éramos, como o Costa zinguirys, estes pássaros pequenotes que andam em grupos nas machambas e fazem ninhos com capim e flores.
E a ideia de Mandjolo, não será, senão a volta ao ninho floreado deste pássaro, desejoso, de se encontrar com o seu grupo.
Bem haja o Costa Neto, por este seu apego a terra, por esta evocação a Manjolo, que no fim ao cabo, é a evocação e construção dos espaços onde cada um de nós cresceu. Há sim, saudosismo puro e positivo em Mandjolo.
Amosse Macamo

Se quiseres ouvir musicas do Costa incluindo Mandjolo va para www.myspace.com/costaneto

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Que doença matou Joaquim Macuácua?

Sala Ema”
Lawa mavabyi aningue hanhi/
No vona(lorha) ntima wa sathani Ema
Ni dlawa hi mhaka ya wena nsati wa mina Ema
Vali aniku ringani (mussaveni) we nsati wa mina
Unga kwati murhandziwa
Vata ni landza lava vani dlayaka mina
Hlaissa vana va hina nkata haswo
Unga shenguiwe hi vama tiku vangaku peta lwandli Ema mama

Nili rhula murhandziwa
Nita vuya nitaku teka massiku ma taku
Ndzi rhula we nsati wa mina Ema
Ni tavuya ni taku teka massiku ma taku Ema

Unga rili murhandziwa
Niya lunguissa ndawu ya wena tilweni
Miela ku rila murhanziwa
Hitaku swi yini we nsati wa mina Ema

Miela Ema mamani aswa missava hi swoleswo nkata
Miela ku rila, miela ku rila...-Joaquim Macuácua

Que doença matou Joaquim Macuácua?
Sempre admirei os artistas, pela sua sensibilidade de dizer o comum de forma velada, pelo evasionismo, apelo ao belo, coração livre, pela intensidade e pela forma vibrante e típica que encaram a vida, dai, o meu ódio aos pseudo artistas justamente pela falta de arte na abordagem dos seus trabalhos.
Felizmente, o Joaquim Macuácua tinha um pouco de tudo, até com um pouco de exagero. Homem de discurso sólido, de beleza inigualável nos seus temas, polémico de natureza; sua música caracteriza-se na sua maioria, pelas suas próprias experiências de vida, muitas delas mal sucedidas, mas superadas em forma de canto.
Se o Joaquim fosse obrigado a escolher em seus próprios temas, um que caracterizasse a sua vida certamente que escolheria “Nicombela Ndlela”, justamente na parte que diz “kussuquela ni fika ka tiku leli (Maputo) utomi la mina lo honekela, lifamba hishi baba (…), /desde que cheguei a esta terra (Maputo), a minha vida só complicou-se, anda mesmo mal (…)
A música que me proponho abordar, não foge desta linha de drama paradoxal da sua própria existência; trata-se da música “Sala Ema”, que me parece ter sido cantado no limite do seu drama de vida.
Joaquim, é um exemplo de quem aceitou a morte e preparou as pessoas ao seu redor para a mesma, mas acima de tudo, como bom artista que era, disse a todo mundo e de viva voz, a doença que o matou.
Sim, Joaquim disse a todos nós, nesta música “Sala Ema”, que padecia de uma doença fatal e, como que num despertar existencial começa a música com o seguinte pronunciamento: “estou certo que com esta doença não vou sobreviver” e o questionamento: que doença o Joaquim tinha a certeza de que não haveria de sobreviver? Dito de outra forma; que doença havia de eliminar as suas esperanças de cura até ao ponto de declarar que tinha certeza de que não havia de sobreviver?
Lançada a afirmação, diz logo a seguir no segundo verso que “só consigo ver o luto de Satanás”. Mais um sinal de que não vai mesmo sobreviver.
Logo a seguir diz a mulher, que ela é a causa da sua morte, isto porque alguém o fez crer que ela não o merecia; em clara referência as mulheres com quem se relacionava (amantes.)
Esta atitude, é de puro arrependimento pois, se o Joaquim não tivesse ouvido essas vozes, teria permanecido fiel e consequentemente vivo até hoje e se morto, teria sido por alguma outra causa e não pela doença que o levou.
Se o amigo leitor pergunta-se até agora, o que o Joaquim está tentando dizer, e que doença estranha é essa que o vai tirar a vida, as dúvidas se dissipam, com o esclarecimento do verso a seguir, quando diz: “não se entristeça minha mulher, vão me seguir os que hoje me matam.”
Ora, se antes podíamos ter dúvidas quanto a doença que o Joaquim estava a tentar nos transmitir, depois desta afirmação fica tudo claro, pois, se ele tem a segurança de que os que o fazem morrer também o vão seguir, só se pode tratar de uma doença infecciosa que se transmite de pessoa para pessoa, logo, os que o transmitiram tambem vão o seguir porque esta doenca não tem cura. (sei que já estamos a caminhar juntos.)
Mas quando dizia no princípio que Joaquim preparou as pessoas que seriam afectadas directa e indirectamente pela sua morte, tal, ganha vida quando tenta acalmar a sua esposa Ema que chora, pedindo para que ela não chore “porque um dia, virei te buscar”.
Na verdade, quando o Joaquim nota que a Ema continua a chorar diz para ela, num acto de reconhecimento tardio de uma companheira de vida que “não chores meu amor, só adianto-me para preparar o teu lugar no céu.”
Uma declaração profunda, pois, reveladora da sua intenção de que os dois viverão juntos eternamente.
Estas declarações, são acompanhadas de um forte apelo, para que a mulher, fique a cuidar dos seus filhos, não deixando que ninguém interfira na sua vida, porque podem a “perder”e /ou desviar.
E Joaquim, quando se apercebe que não consegue animar a mulher, muda o ritmo (num acto que lhe é característico na maioria de suas músicas), de “slow” (sileta) para samba, como que exorcizando a morte com a dança e diz já aqui e todo feliz e certo de que venceu a morte; “não chore mulher, a vida é assim mesmo.” E não é assim?
Até hoje, não me perdoo por não ter entendido o SOS de Joaquim Macuácua, a tempo, porque se fosse atento e na altura diria que o Joaquim, foi o primeiro na sua classe, a quebrar o silêncio, dizendo de viva voz e para todos repetidamente sempre que a música era tocada, que padecia de uma doença grave e sem cura.
Com esta música não só disse a doença que tinha, como preparou a mulher para a sua partida, cantando a sua própria desgraça.
Ora, o facto de percebermos tardiamente uma declaração, não pode de forma alguma invalidar o que o declaratário quis dizer, pelo que, para todos os efeitos, o Joaquim Macuácua, foi o primeiro dentre os seus pares, a quebrar o silêncio e dizer de viva voz qual a doença que o apoquentava.
Mais uma razão, para me render a este intérprete e compositor de proa da música moçambicana.
Com esta música, Joaquim se renovou e venceu as suas próprias limitações como homem e como artista. Era um grande ARTISTA Joaquim Macuácua, um fascínio de ARTISTA…
P.S. se a pergunta de que doença matou o Joaquim Macuácua persistir no final destes escritos, não se preocupe, porque tal não é importante, o que faço ou tento fazer, é olhar nas entrelinhas…
Amosse Macamo

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Bilibiza

Bilibiza
Em Salimo, certamente coexistem dois mundos radicalmente opostos: a esperança e o desespero, a perseverança e a inutilidade, que só se sustentam, porque ele é um homem de têmpera rija.
O davula mananga, talvez seja o exemplo deste desespero e esperança, onde numa situação limite, viu-se obrigado a partir, chegando, como ele mesmo diz, a orientar-se com o sol.
De facto, quando todas as expectativas são desfeitas, nada resta ao homem senão partir e Salimo partiu. Chegou ao ponto de convencer-se, que um curandeiro o tratara para ser invisível; pudera!
Ora, só o desespero pode trazer situação igual, porque doutra forma não se pode perceber, que Salimo tenha acreditado que ficou mesmo invisível.
Mas engana-se quem pensa que partem os cobardes, não; só um homem de coragem pode partir, só um homem de ânsia, de temor, de persistência e acima de tudo de esperança é capaz de partir, justamente pela ideia de que a frente será diferente.
Só um homem corajosos e portanto, capaz de incentivar-se a si próprio pode partir, isto porque quem parte nunca pede conselhos, tão-somente, partilhar a ideia.
O davula mananga é a música dos rejeitados, dos que se sentem marginalizados, do apelo ao isolamento, dos que partem com uma cicatriz no coração.
O Bilibiza, foi talvez, a mais dura experiência de Salimo, o inevitável parto de davula mananga e outras sagas de Salimo, porque, ele, nunca conseguiu, mesmo que querendo esquecer Bilibiza. Marcou-o de tal forma, que disse para ele mesmo que tinha de sobreviver, para poder contar aos outros a sua experiência.
E a música Bilibiza, é este partilhar não querendo, da sua passagem daquele campo de reeducação e mesmo quando hoje se nega a falar daquela experiência, penso que o faz com toda a razão, porque em duas palavras, esgota o que viveu em Bilibiza:“ya bahmba” (é duro Bilibiza, na verdade, bate-se duro em Bilibiza). “Kuni mayila yila le Bibilibiza” (há vicissitudes em Bilibiza.).
De facto, a ideia de reeducar o homem separando-o da família, será sempre um fardo que Salimo vai carregar por toda a vida e ninguém o fará esquecer, mesmo que perdoando, porque Bilibiza, foi para ele, uma gruta da escuridão, onde negou-se a reeducação, porque nunca precisou dela.
Mas Bilibiza ganha, por trazer os dois mundos antagónicos de Salimo: do desespero e da esperança, afinal, tal como no davula mananga onde primeiro, ganha a ideia de sofrimento enraizado, de um drama humilhante e desesperante onde se dança Makway (dança que era tida como de castigo), até ao segundo momento onde, “Bilibiza ka rimiwa” (Em Bilibiza cultiva-se.)
Bom, a primeira vista, diríamos que Salimo diz, aquilo que foi de domínio de todos, que em Bilibiza cultivava-se. Afinal, uma forma de garantir o auto sustento, das várias pessoas, tiradas de todo o pais, para a reeducação.
Mas, se olharmos com outros olhos para a expressão cultiva-se, deparamo-nos com uma sobreposição propositada: só cultiva quem quer semear e só semea, quem quer colher.
Assim, o acto de cultivar remete-nos a várias realidades, sendo algumas as de nascimento de uma nova planta (novo pensamento), de renovação, de esperança de abundância e acima de tudo, de um enraizamento capaz de sobreviver as intempéries.
E Salimo é esta raiz, capaz de sobreviver a qualquer intempérie, é este homem que vive na fronteira da esperança e de desespero, é este, que quando decide escolher a canção que melhor o caracteriza ou o canta, elege hlalelani vokala ndjombo (contemplem os desafortunados/azarados)
Bilibiza é para mim, a mensagem insistente e insinuante de nascimento de um novo pensamento, um novo ser já cultivado: prenúncio de uma revolução.
Na verdade, quando Salimo diz no final do coro ahi fambeni hiyaku vona, (vamos lá ver) faz o que nos acostumou, lançar duas ou mais ideias em uma só: lança primeiro uma intenção de denúncia da dureza de vida que se vivia em Bilibiza por um lado, e por outro, a ideia de uma mensagem de apelo para que todos possam lá ir, e testemunhar que apesar de tudo, algo de bom ali acontece. É a ideia dos dois mundos; a simbiose que caracteriza o Simeão, digo Salimo.
Amosse Macamo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ximeliana Dzukuta/boas festas

Ximeliana Dzukuta
Ximeliana Dzukuta, Ximeliana Dzukuta/niku patsa ni matega dzukuta/niku tota ni ximate dzukuta. Calada da noite, no areal, a luz do luar, no bairro de caniço, na verdade na Polana Caniço, divertia-me ao som deste e outros cânticos.
Havia sempre uma Ximeliana no meio a quem era dedicado esta música e repare, quanto mais condimentos para patsar a Ximeliana, mais apetecível ficava e aquela, regozijava-se de saber que causava tanta água na boca. Mas se esta canção não dizia em concreto quem era a Ximeliana, fazia-se necessário, procurar uma outra mais especifica, dai que não tardava que cantássemos loko niku dentro Polana, Nikhumbuka Mariza wamina, Shaku leha nhana Mariza, kambe vata teka nanwana (quando chego a Polana, vem-me a mente a minha Mariza, tão altinha, pena que os outros vão levar).
Esta canção, era na verdade, uma declaração de amor em praça pública, onde se esperava toda e quaisquer reacções, porque se a Mariza, não gostasse, ela entrava na roda e cantava o nome de quem era seu escolhido, com o risco de não ser nunca a pessoa que a escolheu.
Não havia, com efeito, pior vergonha que, quando as declarações de intenções divergiam.
Por outro lado, as meninas cantarolavam “a vasati va djoni ava lunganga, vani tekeli nuna wamina” (as sul-africanas não são boas, roubaram-me o marido). Esta canção, era também interessante porque se a rapariga estivesse interessada por um dos rapazes, era só substituir a parte de nuna (marido), pelo nome do seu amado e pimba.
O mais interessante nisto, era a carga melódica que estas canções carregavam, fazendo com que se cantasse por largos espaços de tempo, sem se tornarem enfadonhas, aliás, quanto mais longas, eram mais abrangentes
Outro facto interessante era a declaração de intenções por detrás da canção, isto é, a canção, como veículo transmissor do mais puro sentimento guardado no nosso íntimo. Outrossim; o entendimento destas canções era uma chave possível para uma aprendizagem social.
Hoje, não consigo olhar para trás sem que estas canções e outras me invadam a mente, porque partes de mim. E mais, estas canções desmascaravam as nossas almas, criavam em nós episódios de aproximação, tornavam-nos generosos, cimentavam em nós uma solidariedade instintiva e acima de tudo; socializavam-nos.
Em meia idade, ia ouvindo já executores como fany, Mutcheca, Zeburane, Mahecuane, Xidimingane, Mhula,Chiau….e estes, pareciam recriar com as suas canções aquelas que ouvi na infância, como que de uma reminiscência se tratasse. E hoje, já adulto, recordo a criança em mim com as mesmas músicas e mais, consolido o adulto e tomara que saiba transmitir estas músicas aos meus filhos, e crie neles, o mesmo sentimento que estas criaram em mim: esperança e dignidade.
A todos que acreditam na nossa música e nos seus valores, na possibilidade desta ser um contributo válido para a sociedade, vai uma prece de que o novo ano seja melhor em todos os campos.
Festas felizes a todos e principalmente aos amigos do Modaskavalu e claro, para todas as Ximeliana.